“Direta de los Martinez”, “Paso Horizontal”, “Cepeda” e “Vuelo del Dragon”
Ainda que a nossa história esteja a repleta de nomes fantásticos e termos imaginários, a protagonista é a montanha das montanhas, a rainha das montanhas Espanholas. Ainda que para nós (Alcino, Emanuel, Fred e eu, Sérgio) estar aqui parecesse um conto de fadas, as vivências aqui narradas são bem reais e felizmente, depois de muito sonharmos, a viagem até aos Picus acabou mesmo por acontecer!
“Vai ser sem dúvida este ano…” – este era o plano para o final do Verão de 2010. Mas, a paternidade revelou-se prioritária e uma experiência bem mais real!
Finais de Julho 2011 parecia-nos fantástico. A ideia era fugirmos das romarias de Agosto e, se possível, apanharmos condições atmosféricas mais favoráveis. Por isso, estava decidido e era altura de fazermos os nossos planos.
Na verdade, a via “Amistad com El Diablo” na face Este foi sempre o meu principal objectivo.
Rapidamente passou a semana e num piscar de olhos estávamos nós carregados com mais de 20kg às costas e com um ambiente que, ainda que húmido, era perfeito para este tipo de aproximação.
O caminho de aproximação ao Refúgio Veja de Urrielo é, para quem nunca andou por estas paisagens, uma belo exemplo do que os Picus de Europa têm para oferecer. Picos de calcário cinzento que se erguem de pequenos prados verdejantes abruptamente, como que a apontar para o céu. Não sendo montanhas muito altas são sem dúvidas paisagens com um aspecto austero e agreste que merecem muito respeito. A marcha de aproximação é um belo passeio, sempre acompanhados por uma banda sonora proporcionada pelos rebanhos que pastam tanto nos terrenos mais escarpados como nos pequenos bosques de faias que podemos deslumbrar pelo caminho. Não fosse o excesso de peso e este tinha sido um delicioso passeio.
Embora se tratasse da minha segunda visita esta era a primeira vez que tinha a oportunidade para me regalar com as vistas; o tempo característico dos Picus tinha-nos privado da primeira vez.
A ideia era bivacarmos junto do refúgio e fazermos a nossa vida em total autonomia e a pequena tenda que carinhosamente transportávamos era apenas para uma eventualidade que acabaria por surgir logo no primeiro dia. Como já é hábito, as Astúrias oferecem uma meteorologia única que pode mudar em poucos minutos, embora nada fizesse prever que quatro marmanjos tivessem que passar várias noites numa tenda minúscula que devidos às chuvas torrenciais e sensação térmica que ao rondar os 0ºC não convidava ao bivaque. Mas afinal onde para o verão?
O Alcino e Emanuel decidem estrear-se no Naranjo com a clássica “Direta dos Matinez” enquanto eu e o Fred decidimo-nos pela via do “Paso Horizontal”. Não deixa de ser impressionante que esta via que nos oferece um ambiente único foi aberta em 1928 em solitário pelo herói de Manuel Martinez. O primeiro largo é simples e conduz-nos por um esporão onde é fácil proteger o segundo largo. É algo que não esperávamos encontrar nesta via e o Fred inicia-o, revelando-se um espectacular largo de fissura (neste caso em canelizo), de início quase vertical e termina praticamente 40 metros depois. O famoso largo do passo horizontal, uma bela travessia que, embora seja fácil de proteger, nos oferece um ambiente muito particular, levar-nos-ia ao encontro das únicas pessoas que escalavam o Naranjo nesse dia: o Emanuel e o Alcino.
Enquanto isso, eu e o Fred andávamos na azáfama de tentar descobrir o nosso percurso vertical para as próximas horas: “El Vuelo del Dragon”. Uma via de estilo moderno que percorre uma das partes mais verticais da parede, com zonas de aderência e onde o excelente calcário do Naranjo chega aqui às 5 estrelas, recomendada por muitos guias e que era descrita como uma pequena pérola, pequena pela sua dimensão mas grande em emoções, com um largo, considerado por muitos, um dos melhores do Naranjo. Esta foi uma das últimas vias abertas nesta face, obra dos criadores da famosa “Amistad” e “Capricho de Venus”. Tínhamos pela frente quatro largos que possibilitam no final sair por cima pela Via Nani ou rapelar até ao chão.
Preparados para iniciarmos a via, o Fred dá uma última vista de olhos aos antigos croquis e pronuncia uma frase que me abalaria: “O segundo largo é teu pois eu não vou escalar 30metros com um só seguro…”. Engoli em seco e decidi mostrar-lhe que não poderia ser, tinha que estar enganado, por norma analiso bem os cróquis. Segundo parece, deixei-me deslumbrar pelas belas descrições e desleixei-me na análise dos croquis: o segundo largo da via contava apenas com um ponto seguro num muro de trinta metros, numa escalada de aderência em ambiente hostil. Eu sabia que o anunciado V grau poderia ter um aspecto simpático nos croquis mas na realidade no Naranjo as coisas não são assim tão lineares. O Fred escala exemplarmente o primeiro largo que conta com 3 pontos fixos, algumas passagens periclitantes e um tecto que tinha que ser contornado onde teríamos que montar a primeira reunião. Após escalar este largo de segundo tive a certeza que não me poderia fiar nas cotações ou, pelo menos, eu ainda não tinha a destreza necessária para escalar nesta montanha. Estava na altura de eu enfrentar os meus demónios e evitar todos os vuelos possíveis.
40 metros de rocha fantástica, movimentos atléticos e passes de desportiva, fazem deste um dos melhores largos que já escalei. Conta com apenas 7 parabolts e um pitão, mas aqui já temos possibilidade de meter um ou outro ponto. Se vamos com a ideia de escalar à vista e encadear à primeira não encontraremos grandes hipóteses de descansar. Bidedos, regletes generosas, passes aleatórios, aplats, passes de ombro e o crux, que era nada mais do que uma reglet invertida para a mão direita e uma reglete para mão esquerda, subir bem os pés em aderência, confiar e bloquear forte para alcançarmos uma presa generosa que levaria a melhor sobre mim. Ainda antes de chegarmos à reunião encontramos uma fissura que se escala em oposição, com os pés em nada, a fazer lembrar as belas escaldas da Peneda com ambiente e onde um voo nos leva a uns 10 metros mais a baixo. Aqui meto um friend já no limite e sigo para a reunião com uma fantástica sensação. Escalando já na gélida sombra, o Fred escala este longo largo e rapidamente se coloca a meu lado. O próximo largo apresenta uma escalada mais tranquila, com boa presa mas sempre vertical e atlético.
Em rappel, fugimos, com toda a pressa, da sombra até alcançarmos de novo o solo horizontal, que nos oferecia, num só, um belo sol de final de tarde e um belo posto para observar as andanças do Alcino e Emanuel.
No dia seguinte aparecia a nossa montanha, bem molhada, por entre as baixas nuvens e, desta forma, nos retirava qualquer hipótese de tentar a nossa primeira experiência na Majestosa face Oeste.
Estava na hora de voltarmos ao carro e sucessivamente a casa, mas colocava-se a questão: “Regressaremos um dia para viver mais uma história de conto de fadas?” Só o destino o dirá, mas o que podemos afirmar é que estes 4 viveram felizes até a próxima aventura.








































Tres Bien!
Paulo Roxo
Por: Paulo Roxo em Dezembro 16, 2011
às 5:29 pm
Sem dúvida, mais que uma aventura… Até à próxima…
Por: Emanuel em Dezembro 16, 2011
às 7:32 pm
Ganda pinta! Venham mais destas!!!
Abreijos
Daniela
Por: Daniela Teixeira em Dezembro 21, 2011
às 9:26 am