Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Maio 19, 2009

Ordesa – Chamonix

 

Há 4 anos atrás, em pleno verão, fomos numa viagem de 2 semanas por Andorra, Ordesa e Chamonix, à procura de actividades e aventuras de e na montanha.

Para mim era tudo uma novidade. Não que não gostasse do contacto com a natureza, porque sempre gostei, mas porque nunca tinha feito nada do género.

Após termos passado 2 dias em Andorra a comprar algum material (nem umas botas decentes de montanha eu tinha) partimos em direcção a Ordesa, fazendo uma paragem de 2 dias em Benasque.

Benasque é um município da Espanha na província de Huesca, com uma área 233,17 km² e 2080 habitantes.

É uma pequena comunidade que respira natureza e vive da montanha, repleta de lojas de material de montanha e um ir e vir de pessoas de actividades montanheiras.

É uma cidade verdadeiramente pacífica, muito limpa, dominada pelas belas montanhas que se impõem e os vários cursos de água que podemos ver ao longo das estradas.

Benasque

Benasque

A maravilhosa envolvência de Benasque

A maravilhosa envolvência de Benasque

 Em Benasque não realizamos nenhuma actividade pois o nosso plano era apenas passar uma noite para logo partirmos em direcção a Ordesa. Aí sim, esperava-nos, e a mim em especial, uma desafiante actividade.

A ideia era uma caminhada de 2 dias pelo vale de Ordesa, começando por subir pela Senda de Los Cazadores, percorrer o vale pela parte superior, descer no fundo do vale, junto à cascata Cauda de Cavalo, voltar a subir e pernoitar junto ao refúgio. No dia seguinte, fazer o regresso, mas sempre pela parte baixa do vale.

Assim, o dia e a caminhada começaram bem cedo e, mesmo pela fresca da manhã, a senda de Los Cazadores foi um verdadeiro desafio para mim, com a agravante de, na altura, eu não ter qualquer preparação física.

 

O início da caminhada de 2 dias pelo Parque de Ordesa e Monte Perdido

O início da caminhada de 2 dias pelo Parque de Ordesa e Monte Perdido

O Vale de Ordesa (Espanha) é o vale que originou a criação do Parque Nacional de Ordesa em 1918. Anos mais tarde, em 1982, foi ampliado para criar o Parque Nacional de Ordesa y Monte Perdido incluindo o maciço de Monte Perdido, o Canyon de Añisclo, a Gargantas de Escuaín e a cabeceira do Vale de Pineta.

O Vale inclui uma ampla zona de pequenos vales e barrancos, planaltos e picos (muitos com mais de 3000 m de altura), cujos limites são a Norte a crista Monte Perdido-Mondarruego, que serve de fronteira com França, a Sul a crista Serra Custodia-Acuta e a Oeste a confluência com a cabeceira do Vale do Ara ou Vale de Bujaruelo. Todo este conjunto forma uma bacia fluvial que, através de vales secundários e cascatas, desemboca no Vale de Ordesa.

O Vale propriamente dito é um espectacular vale glacial, com uma marcada forma de “U”, em que o rio Arazas vai descendendo numa sucessão de belas cascatas, começando no início do vale, no Circo de Soaso, com a Cola de Caballo (Cauda de Cavalo).

A paisagem esmagadora do Parque

A paisagem esmagadora do Parque

Nas zonas altas destaca-se uma parte da crista Norte, desde o Monte Perdido (3.355 m) até os Gabietos (3.034 m), toda uma sucessão de picos de mais de 3.000 m, na qual se abre uma impressionante gruta, a Brecha de Rolando, passo “natural” entre França e Espanha e que segundo a lenda foi aberta por um golpe da espada de Rolando. Um pouco a Sul da Brecha encontra-se a Gruta de Casteret, cujo interior está em grande parte congelado, com colunas e cascatas de gelo.

Nas paredes verticais do vale, produzidas pela diferente dureza das capas rochosas postas a descoberto pela acção do antigo glaciar, abrem-se várias Fajas, pequenas cornijas horizontais que permitem percorrer o vale em altura, por vertiginosas e estreitas fendas. Delas destacam-se a Senda de Cazadores que permite visualizar praticamente toda a vertente sul do vale, e a Faja de las Flores, mais alta e vertiginosa na vertente Norte.

A senda é um caminho tortuoso, estreito, cheio de cascalho, com um desnível de 675 metros até atingirmos o miradouro de Calcilarruego a 1952m de altura, de onde se tem a mais inacreditável vista do Canhão de Ordesa.

A subida é extenuante… Cerca de 2 horas de exaustão, sempre a subir e subir e subir… A recompensa? Além da vista que se tem do miradouro e da sombra que o bosque proporciona, a visão do outro mundo que se vai tendo a subir a encosta do vale. De tirar o fôlego!

A extenuante Senda de Los Cazadores

A extenuante Senda de Los Cazadores

O percurso seguinte foi feito pela parte superior do vale, por um trilho maioritariamente desprovido de sombra, de baixo de um sol e um calor abrasadores.

No final do vale, descemos até à zona mais baixa para desfrutarmos das águas frescas da cascata, descansarmos um pouco, para depois fazer o último percurso até ao refúgio de montanha.

A ponta do vale com a cascata Cauda de Cavalo como cenário

A ponta do vale com a cascata Cauda de Cavalo como cenário

O recomeço da jornada é feito na ponta do vale, subindo por umas gravilhas. Apesar da exaustão e do calor, a este ponto, é sempre divertido fazer qualquer coisa diferente de caminhar; nem que seja subir uma parede com a ajuda de umas correntes!!

Gravilhas: início da subida para o refúgio

Gravilhas: início da subida para o refúgio

O restante caminho até ao refúgio foi um verdadeiro desafio para mim, não tanto físico, mas sim psicológico. Estava exausta de caminhar, sem saber quanto mais ainda tinha para caminhar. O Sérgio não sabia bem quanto ainda faltava para o refúgio e tentava dar-me alento dizendo sempre “é já depois daquela curva”, o que na realidade não se verificava.

Lá chegamos ao refúgio, eu com todas as minhas energias gastas, o Sérgio todo animado. Apesar de eu pouco levar na minha mochila e ter sido ele a carregar com 99,9% do necessário, ele ainda tinha energia: montou a tenda, fez o jantar e lavou a louça! Eternamente agradecida!!

Há sempre tempo para desfrutar da magia desta paisagem

Há sempre tempo para desfrutar da magia desta paisagem

O dia seguinte não começou da melhor maneira: tinha 2 bolhas gigantescas, em carne viva, nos calcanhares e nem sequer tolerava calçar as botas! Como é que ia sair dali?!

Felizmente no refúgio, uma senhora Portuguesa muito simpática, resolveu o meu problema com uns pensos de silicone. Estava pronta para a caminhada!!!

O regresso foi feito com o vale fresco, com pequenos bosques a proporcionar uma sombra revigorante, cursos de água pura de um azul cristalino, deserto de turistas, silencioso, povoado por animais, desde corsos, a ovelhas até marmotas.

As águas geladas que correm no fundo do vale

As águas geladas que correm no fundo do vale

Terminada a aventura em Ordesa, rumamos até Chamonix, nos Alpes Franceses.

Chamonix é uma bonita cidade de montanha, que vive 365 dias por ano do turismo de aventura e de montanha. É uma cidade pitoresca, muito bonita, limpa… mas também com um nível de vida um pouco caro.

Chamonix até que nos recebeu com um brilhante sol, mas bastou o tempo de escolher um parque de campismo e montar a tenda para começar a chover e nunca mais parar. Durante uma semana, choveu incessantemente! Desespero!!!

O parque de campismo eleito foi o Camping Les Drus, um parque de campismo pequeno, com uma mágica vista para os Les Drus, com serviço de pequeno-almoço (bastava encomendar no dia anterior e na manhã seguinte tínhamos pão e croissants frescos), serviço de pizzaria todas as quartas-feiras (uma roulotte de pizzas estacionava uma vez por semana), quartos de banho mistos muito limpos, etc. E o preço era bastante convidativo.

Com o tempo a não jogar a nosso favor, uma vez que um dos nossos objectivos era escalar rocha, decidimos passear pela cidade e pelos arredores de modo a conhecermos um pouco da envolvência e da alma da cidade.

Homenagem a Horace Bénédict de Saussure, naturalista e geólogo suíço, que viveu no séc. XVIII. É considerado como o fundador do alpinismo.

Homenagem a Horace Bénédict de Saussure, naturalista e geólogo suíço, que viveu no séc. XVIII. É considerado como o fundador do alpinismo.

A nossa primeira actividade, aproveitando as tréguas do S. Pedro, foi um pequeno trekking até ao Colo do Voza. O problema é que S. Pedro deveria estar de mau humor e as suas tréguas não duraram muito, pois logo na descida a chuva recomeçou.

O engraçado da alma desta cidade é que, faça chuva ou faça sol, as pessoas fazem os seus trekkings, as suas corridas, como se estivesse um tempo perfeito. Desde bebés de colo lá do alto das mochilas para crianças, até à terceira idade… O que para nós é um almoço de domingo, para eles é um trekking de domingo… Com toda a família, sem excepções.

Trekking "Colo do Voza"

Trekking "Colo do Voza"

Uma vez que não tínhamos a colaboração do S. Pedro para uma actividade de escalada, mudamos os nossos planos e mantivemo-nos nos trekkings.

Por isso, demos uma olhadela às cartas, à internet, aos folhetos informativos e à nossa volta e decidimos ir conhecer o glaciar de Bossons.

O trekking é uma subida com um grande desnível (como tudo em Chamonix) feito em parte pelo meio de um bonito bosque e sempre, sempre com uma vista mágica!

A partir de 1/3 do trekking é nosso companheiro de caminhada o bonito e imponente glaciar.

Trekking até ao glaciar de Bossons

Trekking até ao glaciar de Bossons

A merenda com vista para o Glaciar de Bossons

A merenda com vista para o Glaciar de Bossons

A Aiguille du Midi ao longe (vista do Glaciar de Bossons)

A Aiguille du Midi ao longe (vista do Glaciar de Bossons)

Mas ainda nos esperava a mais fantástica das aventuras… Mer de Glace! O ex-líbris de Chamonix, o enorme glaciar localizado nas encostas setentrionais do maciço do Monte Branco. Tem 5,6 km de comprimento e 200 metros de profundidade. Com uma área de cerca de 40 km² é o segundo maior glaciar do Alpes, logo depois do Glaciar de Aletsch.

Chegada ao Mer de Glace

Chegada ao Mer de Glace

A subida até ao glaciar é feita de comboio e logo após a saída das carruagens começa a diversão!

A verdade é que subimos até ao glaciar de comboio, mas depois temos que descer até ao glaciar. Como é que se desce? Por um conjunto de cerca de 6 ou 7 lanços de escadas de ferro presas à rocha, cada um com cerca de 7 metros. Divertido? Nem por isso… Intimidador? Muito! Não há protecção e todos os pensamentos nos voam na cabeça, pois a vista lá no fundo, lá longe no fundo, não é animadora. Rocha, muito calhau, chão duro… e nós sem protecção!

Mas a coragem e o controlo acabam por dominar e a descida lá foi feita, com toda a calma e sem olhar lá para baixo.

A vertiginosa descida até ao glaciar

A vertiginosa descida até ao glaciar

Mas, com os pés finalmente assentes em terra firme… Terra firme?! Isto é tudo menos terra firme! O glaciar mexe-se continuamente, tal com o nome deste glaciar diz, como um mar gelado.

Mas a sensação é incrível! Imaginamo-nos como aqueles exploradores, em cima de um verdadeiro glaciar, todos equipados como manda a lei da sapatilha, com as nossas plainas, crampons, piolets, óculos de sol…

Passamos um bom dia no Mer de Glace, com um sol quentinho a brilhar todo o dia, a fazer algumas actividades (escalar em gelo, rapelar…) ou simplesmente a caminhar em cima desta força da natureza, a ver as crevasses, a água azul turquesa a correr por entre o gelo… Muito bom!!

O único defeito do Mer de Glace? A enchente de gente. Devido a ser um glaciar de percurso fácil, sem grandes riscos ou requerimento de qualificações técnicas é um ponto de interesse obrigatório.

Outro ponto de interesse obrigatório em Chamonix é a Aiguille du Midi.

A Aiguille du Midi (3,842 m) é uma montanha no maciço do Monte Branco e deve o seu nome (agulha do meio dia) à posição exacta do sol ao meio dia no seu pico, quando visto da cidade.

A subida até à Aiguille du Midi pode ser feita a pé ou, de um modo mais cómodo, de teleférico. O teleférico, construído em 1955 deteve o título de altitude durante duas décadas e ainda detém o recorde de maior ascensão vertical, subindo desde os 1035 metros até os 3842 em apensas 20 minutos. Por esta razão, muitas pessoas sofrem de mal de altitude quando chegam à Aiguille du Midi, pois a subia é muito rápida, não dando tempo para aclimatar.

A Aiguille du Midi é um ponto turístico e um ponto de partida para expedições. Possui um miradouro, um café e uma loja de lembranças, a grande pista de ski do Vallée Blanche começa aqui e o refúgio Cosmiques, que fica ali perto, é o ponto de partido para uma das rotas de ascensão ao Monte Branco.

A vista da Aiguille du Midi é de tirar o fôlego. Sentimo-nos no topo do mundo, com vontade de percorrer aqueles picos nevados, com inveja daqueles que vemos partir e chegar para o maravilhoso abismo branco. Talvez um dia…

Vista da cordilheira a partir da Aguille de Midi

Vista da cordilheira a partir da Aguille de Midi

Repletos de vontade de aventura, em parte pela visita à Aiguille du Midi, mas também por não podermos escalar na rocha, fomos conhecer mais um glaciar: o Argentiére.

O trekking até ao glaciar começa no estacionamento de Grand Montets. Embora não seja um trekking tecnicamente exigente, podemos considerá-lo de dificuldade média/difícil pois envolve uma ascensão de 1050 metros, exigindo um bom nível de performance física. O percurso tem o total de pouco mais de 8km, mas podemos encurta-lo em 700 metros, apanhando o teleférico de Grand Montets (que foi o que fizemos).

Glaciar de Argentiére

Glaciar de Argentiére

O trekking é muito bonito, sem grandes ajuntamentos, passando por nós esporadicamente, um ou outro aventureiro e, em dada altura, um grupo de ciclistas que se divertiam a descer o trilho a grande velocidade.

Mal avistamos o glaciar ouvimos um grande rugido, um barulho cavernoso mas estridente… Era um pedaço da ponta do glaciar a quebrar. Apesar da dimensão do pedaço não ser de proporções titânicas o barulho era incrível. Deu para imaginar quanto barulho fará quando se parte um pedaço realmente grande.

O Argentiére tem uma beleza mais agreste, com milhares de crevasses profundas, e está bem mais vivo do que o Mer de Glace. Todo o tempo que estivemos no glaciar ouvia-se a água a correr por baixo da superfície, bocados a cair, o barulho do glaciar a deslocar-se… É maravilhoso, selvagem, mas não deixa de ser um pouco assustador, uma vez que éramos os únicos no glaciar e nas imediações.

O Sérgio a aventurar-se no glaciar

O Sérgio a aventurar-se no glaciar

Para nos despedirmos em beleza desta bela terra, finalmente a rocha secou e possibilitou-nos uma pequena escalada num parque em plena cidade. O parque, frequentado por locais e turistas dos 4 aos 94, é dominado por uns paredões com vias de 2 ou 3 largos, tecnicamente simples. Lá deu para tirar a barriga de misérias…

Mas a cidade ainda tinha mais para nos oferecer em jeito de despedida ou de “até breve”… A partida do North Face Ultra Trail. Extenuante corrida de montanha, 24 horas por dia, que percorre a fronteira da França, Itália e Suíça. Uma verdadeira prova para homens e mulheres de todas as idades, com muita coragem e garra.

Escalada em Chamonix

Escalada em Chamonix

North Face Ultra Trail

North Face Ultra Trail

Despedimo-nos de Chamonix com um pôr-do-sol mágico, a iluminar os Les Druds com uma luz que transformava toda aquele cenário numa visão surreal.

Chamonix é um destino a visitar novamente. É possível viver os 365 dias do ano nesta pequena cidade e todos os dias fazer uma nova actividade, sem correr o risco de nos repetirmos ou entediarmos.

Les Drus

Les Drus

Informações:

Benasque: http://www.benasque.com/

www.turismobenasque.com/

Ordesa: http://www.ordesa.net/

  • Como ir: desde Huesca, seguir pela N-330 até Sabiñánigo, depois seguir pela la C-140 até Torla (serviço de autocarros até ao parque).

Chamonix: http://www.chamonix.com/page.php?page=0&r=accueil&ling=en

  • Parque de Campismo: “Camping Les Drus”

Responses

  1. […] 7 anos, quando Ana e eu nos aventuramos pelos Alpes, para além de uma nova dimensão da escalada e alpinismo, também nos foi revelado um desporto […]

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