Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Maio 26, 2009

Viver a India

 

 A ideia de fazer uma viagem à Índia, há muito que vivia no nosso imaginário. Mas como todas as viagens para países distantes, sempre permaneceu como um simples desejo, um sonho.

Começou a concretizar-se no nosso subconsciente, quando vimos um dvd com fotografias de um amigo que viajou pela Índia de mochila às costas durante 3 meses.

Vimos o dvd vezes e vezes sem conta e aos poucos começamos a pesquisar preços, voos, começamos a falar com as poucas pessoas que conhecíamos que já lá tinham ido, começamos a recolher informações sobre os trajectos a fazer, as cidades a visitar, os cuidados a ter, o que era obrigatório ver, comer… Enfim… Sem darmos por isso, a viagem já estava a tomar forma nas nossas mentes e nas nossas vidas.

E lá fomos nós, com as nossas mochilas bem preparadinhas, para que não nos faltasse nada, embora o nosso objectivo fosse não fazer umas férias turísticas, mas sim uma viagem cultural: comer da sua comida, viajar nos seus meios de transporte, comunicar com a população, participar na sua vida quotidiana… Viver a Índia no seu pleno!

 
A viagem quase corria sem percalços se não fosse o facto de nos terem trocado o voo de Londres para Delhi e com isto terem perdido as nossas malas. Tanto trabalho a preparar as nossas mochilas, para nada. Passamos 3 dias em Delhi, com um casal de franceses a quem também tinham perdido as malas, sempre com a mesma roupa a correr todos os dias para o aeroporto para ver se as malas já tinham aparecido. Lá nos deram uma pequena indemnização e lá fomos nós comprar tudo o estritamente necessário para esta viagem de 3 semanas pelo norte e centro deste subcontinente. É de salientar que só 15 dias depois é que nos devolveram as mochilas.

 
Delhi é uma cidade caótica: muito calor, muita humidade, muita gente, muita pobreza, muito barulho, muitos cheiros, muito lixo… As pessoas aqui vivem muito mal (pelo menos pelos nossos padrões), vivem cada dia para sobreviver o seguinte. Para terem uma ideia, há pessoas que tem uma bicicleta e vivem, dormem e trabalham (transportam pessoas e mercadorias de um lado para o outro) na bicicleta. Este choque inicial com esta cidade caótica não foi do melhor, porque em as nossas pequenas coisas, debaixo deste calor durante 3 dias com a mesma roupa, sem nos entendermos no meio deste choque cultural… O nervos acabam por ceder.

 
Ficamos instalados num hotel na Paharganj Area que é onde habitualmente ficam os turistas que viajam de mochila. Tem desde restaurantes, a hotéis, bazares de compras, tudo amontoado em ruas estreitas, repletas de lixo, vacas sagradas, vendedores de rua, milhões de cabos de electricidade cruzados e entrecruzados…

Paharganj Area

Paharganj Area

 

A comida é toda muito forte, muito intensa, picante e cheia de molhos e gordura. Apesar de possuirmos alguns medicamentos (uns trazíamos numa mochila de mão e outros comprados avulso numa “farmácia” indiana) optamos por um regime vegetariano para diminuir os riscos de uma intoxicação alimentar.

Restaurante em Delhi

Restaurante em Delhi

Quando finalmente recebemos a indemnização pela perda das malas, deixamos rapidamente Delhi em direcção a Rishikesh, cidade localizada a nordeste de Delhi, em busca de algo mais pacífico, menos caótico.

A viagem desde Delhi até Rishikesh foi extenuante. A ideia seria viajar de comboio, mas o povo Indiano viaja muito dentro do próprio país e arranjar um bilhete de comboio seja lá para onde for é uma tarefa árdua, que deve ser feita com bastante antecedência através de um sistema de reservas burocrático e labiríntico que, por incrível que possa parecer, realmente funciona. A rede ferroviária indiana tem cerca de 60.000 km e liga quase todos os pontos do país; emprega 1.5 milhões de trabalhadores e circulam diariamente 10.000 comboios. Como tínhamos pressa em sair de Delhi, não tínhamos reservado bilhetes de comboio e queríamos recuperar o tempo perdido devido à perda das malas, seguimos de táxi, através de um negócio pré-estabelecido em Delhi.

Estação de comboios em Delhi

Estação de comboios em Delhi

A viagem demorou 6h, para fazermos cerca de 180km por estradas nacionais completamente poeirentas e repletas de veículos.

Mas, no final, valeu bem a pena…

Rishikesh é a cidade onde nasceu o ioga e onde o Ganges deixa os Himalaias e começa a sua jornada sagrada. É uma cidade pequena, cheia de rituais a decorrerem nas margens do rio durante todo o dia, mas com especial incidência ao nascer e ao por do sol, repleta de templos, de “escolas” de ioga, de música, de pessoas a lavarem a roupa, os dentes, a tomarem banho, a fazerem oferendas aos deuses… tudo no Ganges!

Rishikesh

Rishikesh

 É bastante mais calmo do que Delhi, tem poucos habitantes, menos barulho e poluição. A paisagem e o clima é um pouco mais tropical; é o inicio da cadeia montanhosa, tudo está coberto de selva… e os macacos vivem por todo lado!

A comprar oferendas para os rituais religiosos

A comprar oferendas para os rituais religiosos

 
Os dias passados em Rishikesh foram aproveitados para conhecer melhor esta pacífica cidade e para participar, sempre que possível, nas cerimónias de veneração ao Ganges. Nestas cerimónias o povo convida-nos a participar, explica-nos o que fazer, ajudam-nos e são de uma intensidade indescritível: a música hipnotiza, a gentileza das pessoas comove, o sentimento de paz invade-nos, o coração bate forte de felicidade e paz, a pele de galinha aparece, as lágrimas inevitavelmente inundam os nossos olhos…
 
 
 
 
 
Saímos de Rishikesh (mais uma vez de carro devido à impossibilidade de arranjar bilhetes para as datas pretendidas) em direcção a norte, para Rewalsar Lake, no distrito de Mandi, a 24 km da cidade de Mandi, numa viagem de 10 horas interminável. Podemos dizer que foi uma experiência terrível, embora tenhamos apanhado paisagens indescritíveis, desde selva a alta montanha verdejante, estradas destruídas pelas monções… Tivemos direito a tudo.
 
A viagem foi complicada porque estávamos sempre aos saltos na parte de trás do carro, a humidade e o calor eram difíceis de suportar, as dores no corpo começaram a ser insuportáveis, mas o mais complicado era a poluição quando passávamos pelas aldeias, o que era frequente. Mas o maior problema de todos foi o Sérgio ter começado a ficar doente durante a viagem: vómitos e diarreia. Deduzimos nós que a causa foi uma sopa de tomate que tinha comido em Rishikesh e que na realidade era extremamente saborosa.
 
A fatídica sopa de tomate

A fatídica sopa de tomate

 
 Por fim, chegamos a um local magnífico, Rewalsar Lake, uma pequena vila, situada a 1360 metros de altitude, erguida no redor de um lago sagrado, onde os habitantes são maioritariamente tibetanos e monges.
 
Rewalsar Lake

Rewalsar Lake

 

Este lago é sagrado para Hindus, Sikhs e Budistas. Reza a lenda que o grande Padmasambhava (Guru Rimpoche) usou o seu enorme poder para voar de Rewalsar para o Tibete. Diz-se que o seu espírito reside flutuando nas águas do lago. Na realidade, está povoado por milhares de peixes gigantescos, que a população alimenta e que, devido a ser sagrado, não pesca.

Os peixes do lago sagrado

Os peixes do lago sagrado

 
 
Ficamos hospedados numa guesthouse que faz parte de um templo de monges, onde tudo era feito com base na harmonia, paz, onde até as refeições são confeccionadas pelos divertidos monges.

Estes dias em Rewalsar Lake foram passados a passear pela vila e a recuperar as mazelas do Sérgio. Este é um local ideal para recarregar baterias, é pacifico, calmo e sem poluição e turistas. Os medicamentos que compramos na farmácia em Delhi ajudaram um pouco à recuperação do Sérgio, mas como é possível imaginar, na Índia não é fácil comer uma comida levezinha, de dieta, que ajude a todo este mal-estar. Mas, aos poucos, com uma sopa, uns legumes e bastantes bananas, o Sérgio lá foi recuperando, embora possamos dizer que foi um susto muito grande pois o seu estado debilitou-o muito.
De Rewalsar Lake seguimos em direcção a Manali, mais uma vez de táxi. Manali é uma típica cidade dos Alpes, só que localizada em plenos nos Himalaias. É conhecida como a terra das maçãs, pois existem centenas de hectares de macieiras.

Manali encontra-se a 1950 metros de altitude e, em tempos, foi o inicio da rota de comércio com destino a Ladakh. Este é o nosso ponto de partida para Leh, numa viagem de 2 dias (para percorrer 480 km), feita de camioneta, pelas tortuosas estradas desta cordilheira.

Esta é a segunda estrada mais alta do mundo, com passagens a mais de 5000 km de altitude, recentemente aberta a turistas. A estrada apenas se encontra transitável 3 meses por ano, devido às intempéries, e tem constantemente pessoas a torná-la transitável, por causa das monções, das derrocadas, avalanches…

Quando se sai de Manali somos deslumbrados com uma paisagem alpina e à medida que se vai subindo nas montanhas a paisagem torna-se cada vez mais árida, com grandes montanhas e os seus picos nevados como pano de fundo.
Os Himalaias fazem jus ao nosso imaginário, mas têm tanto de esplendoroso como de assustador. Percorremos grande parte do primeiro dia por estradas de curva contra curva, por ravinas sem qualquer protecção, com a estrada a desmoronar-se a cada instante. A estrada é pouco mais larga do que uma camioneta, no entanto cruzávamo-nos constantemente com camiões e jipes, sendo que todas estas manobras se passam a centenas de metros de altura (2500, 3500 e mais).

A travessia dos Himalaias

A travessia dos Himalaias

Acabamos o dia, que começou às 7h, por volta das 21h num vale a 4300m de altitude a dormir num acampamento de nómadas. Aqui os efeitos da altitude e do desgaste da viagem já se fazem sentir.

O acampamento nos Himalaias

O acampamento nos Himalaias

 
 

Acordamos depois de uma noite complicada e notamos que os efeitos da altitude tinham piorado, mas no entanto, de todos, fomos os que conseguimos dormir melhor, numa temperatura que deve ter chegado aos 0ºC.

Partimos às 7h para mais um dia de pulos na parte de traz da carrinha, e com a má disposição da altitude a fazer-se sentir no seu pleno: todos na camioneta sentiam, de algum modo, o mal de altura ou um mal intestinal qualquer. Passadas tantas horas todos juntos nesta camioneta, a dada altura o pudor desaparece e tudo o que se vê cada vez que a camioneta pára no meio de uma qualquer ravina na travessia dos Himalaias, é um bando de gente com rolos de papel higiénico a correr em 1001 direcções! Eu não fui excepção e o segundo dia desta viagem foi passado com náuseas e vómitos de tal modo que nem consegui sair da camioneta no ponto mais alto da estrada.

 
O ponto mais alto da estrada, 5328 m

O ponto mais alto da estrada, 5328 m

 
 

Esta estrada é uma estrada com postos de controlo (militarizados), passagens por rios (em que o acompanhante do condutor se mete dentro de água para colocar pedras para a camioneta conseguir passar), pontes de metal em ravinas de 2500m de altura ou mais e uma passagem pelos 5328m de altitude.

Após esta passagem pelo ponto mais alto, a viagem retoma um curso descendente até Leh.

Leh é uma cidade localizada a 3500 metros de altitude e que em tempos foi a capital do reino de Ladakh. Ainda hoje, a cidade é dominada pelas ruínas do Palácio de Leh, antiga casa da família real de Ladakh. Leh é uma cidade essencialmente tibetana, povoada por tibetanos exilados. 

 
O Palácio de Leh

O Palácio de Leh

 

 Em Leh aproveitamos mais uma vez para descansar, conviver com o povo tibetano, passear nos mercados e comprar alguma fruta, visitar gompas e templos, assistir a cerimónias religiosas, nas quais somos sempre bem-vindos e em que há sempre alguém disponível para nos por a par do que se passa e do que temos que fazer.

Mercado de rua em Leh

Mercado de rua em Leh

 
 

Para sair de Leh, não queríamos voltar a fazer a viagem de 2 dias de camioneta de regresso a Manali. Por isso decidimos tentar o avião com destino directo a Delhi. Mas esta tarefa também não é fácil, pois apesar de se comprarem os bilhetes e se ir para o aeroporto, não é garantido que se embarque, devido à lotação de lugares.

Embarcar neste aeroporto doméstico é uma loucura: desde militares armados, a expedições até um caixão com um morto a passar no raio-X juntamente com as malas. Mas, isto é só um aperitivo!

Como nós, estavam no aeroporto mais 15 pessoas na esperança de ter voo e conseguir sair daqui sem ser de carro ou autocarro. A saída de Leh acabou por ser feita na companhia de 3 italianos, de jipe até Srinagar, a 480 km de Leh, e então apanhar um avião para Dehli.

 A viagem até Shrinagar, na fronteira com o Paquistão, foi feita de noite pelo meio das cordilheiras montanhosas e com constantes paragens em postos de controlo militares fortemente armados, onde éramos obrigados a apresentar os nossos documentos e a preencher outros tantos. A viagem teve o seu quê de surreal e assustador. Esta estrada foi em tempos (e ainda hoje há quem a considere) umas das mais perigosas do mundo, tendo em conta o conflito India/Paquistão.

 A viagem é feita por uma estrada que serpenteia as montanhas de Kashmira e há quem considere uma das mais bonitas viagens dos Himalaias, de nossa parte só podemos falar do inicio pois foi enquanto tivemos luz para ver as fantásticas paisagens. O resto da viagem foi feita por uma escuridão indescritível…

Shrinagar é considerada por muitos a Veneza Indiana, pois grande parte da cidade fica localizada em canais do rio, onde os táxis são barcos e os hotéis também.

 Devido à proximidade com o Paquistão, o aeroporto de Shrinagar é fortemente militarizado e controlado e somos controlados, juntamente com as nossas malas, vezes sem conta: na entrada da zona circundante do aeroporto, à entrada do edifício do aeroporto só entra quem tem bilhete de avião, é feito o check-in às malas e as mesmas passam uma segunda vez pelo raio-X; somos inspeccionados quando passamos para a zona de embarque e novamente inspeccionados a meio caminho entre o edifico e o avião.

 Chegados a Dehli fomos tentar reaver as nossas malas e o que parecia uma tarefa simples, revelou-se extremamente complicado. Na índia, apesar de ser um país em forte expansão e considerado uma das próximas grandes potências mundiais, tudo ainda é feito por papeizinhos; nada é informático. Por isso há sempre 1001 papéis para preencher e assinar. A índia é o segundo país de maior população do mundo e como tal têm que  aproveitar para por 5 pessoas a fazer a função de uma e praticamente cada um só tem que assinar o dito papel!

Em Delhi conseguimos finalmente arranjar bilhetes de comboio para o nosso próximo destino: Varanasi, numa viagem de 12 horas.

 
Funcionários da estação de comboio

Funcionários da estação de comboio

 
 

Felizmente a viagem de comboio foi durante a noite e grande parte passamos a dormir (ou a tentar). A viagem acabou por ser inesquecível! Viajamos num compartimento com 6 pessoas, bastante asseado, com direito a lençóis, cobertores, almofadas e ar condicionado, embora tivéssemos que fazer dos bancos as nossas camas. Eram as carruagens de 1ª classe com AC.

Carruagem 1ª classe

Carruagem 1ª classe

A viagem foi partilhada com um casal de espanhóis e um casal de indianos (irmãos), que também viajavam com destino a Varanasi.

A viagem revelou-se fantástica com trocas de experiências culturais, sociais, políticas e financeiras entre 3 nacionalidades.

 

Os nossos companheiros de viagem
Os nossos companheiros de viagem

 

Varanasi fica a sudeste de Delhi e é uma das cidades mais antigas do mundo que sempre foi povoada. É uma cidade sagrada para Hindus, Budista e Jains e a sua cultura está fortemente associada ao rio Ganges e à sua importância religiosa. É em Sarnath, perto de Varanasi, que se encontra a árvore debaixo da qual Buda foi iluminado e deu o seu primeiro sermão. A cultura Ayurveda é originária de Varanasi e esta cidade é muitas vezes referida como a cidade dos templos, a cidade sagrada da Índia, a capital religiosa da Índia, a cidade das luzes, a cidade do conhecimento ou a capital cultural da Índia.

Está localizada na margem esquerda do rio Ganges, repleta de ruelas estreitas e labirínticas e em que toda a sua vida gira à volta desta intensa cultura e religião e o seu rio sagrado.

Varanassi

Varanassi

 Para o povo Indiano, esta é a cidade de eleição em que todos desejam morrer e/ou ser cremados. Como tal, vêm pessoas de toda a parte do país para esta cidade esperar por morrer, trazer corpos para serem cremados ou cinzas para serem deitadas ao Ganges. As pessoas compram madeira para serem cremadas quando morrem e fazem-se as ditas cremações em espaços públicos, 24 sobre 24 horas.
 
As cinzas das cremações

As cinzas das cremações

 
 

Após a cremação, as cinzas e os restantes ossos são atiradas ao Ganges, onde as pessoas estão a tomar banho, a lavar os dentes, a beber água, a lavar as roupas, onde os búfalos e as vacas tomam banho, onde os cães se alimentam dos restos dos cadáveres, pois há corpos que não podem ser cremados (crianças, grávidas, leprosos) e são atirados ao rio.

Um dos muitos Ghats

Um dos muitos Ghats

 

A água do Ganges é a água que abastece toda a cidade e como tal tudo é cozinhado com esta água. Este facto levou a que mais uma vez ficássemos doentes: eu de um modo muito ligeiro, o Sérgio um bocadinho pior pois ainda não se tinha recuperado na totalidade da primeira indisposição.

Varanasi foi a cidade de eleição desta nossa viagem. É puramente aquilo que o nosso imaginário possui sobre a Índia e sobre esta cultura antiga e intensa. É uma cidade forte, que mexe com todos os nossos sentidos, que faz o nosso coração disparar de tanta informação cultural e religiosa que nos rodeia… É maravilhosa!

Saídos de Varanasi, rumamos de comboio até Agra, para visitar, como não poderia deixar de ser, o Taj Mahal.

 Esta viagem de comboio já não foi feita em 1ª classe com AC, mas sim em 2ª classe com janelas com grades, ventoinhas no tecto e cabines de 8 passageiros. Carruagens púbicas cheias de mosquitos, indianos (um armado) a fazer barulho a noite toda… Um ambiente não muito acolhedor. Mas, nesta altura da nossa viagem, já começamos a estar habituados a este tipo de coisas e não nos foi difícil adormecer.

As carruagens de 2ª classe sem AC

As carruagens de 2ª classe sem AC

Em Agra, o principal interesse é o Taj Mahal e no dia em que o fomos visitar, era o dia da comemoração do aniversário do imperador que mandou construir o Taj Mahal e por isso a entrada era livre.

O Taj Mahal é um mausoléu construído pelo imperador Mongol Shah Jahan em memória da sua esposa favorita, Mumtaz Mahal.

Todos os indianos decidiram ir à festa, o que não foi muito agradável, pois estavam milhares de pessoas nos jardins, filas intermináveis para ver o mausoléu, todos queriam tirar fotografias connosco ou dizer um “hello”… No fundo, parecia que nós é que éramos a atracção e que era o nosso aniversário.

 
A festa no Taj Mahal

A festa no Taj Mahal

 

Foi em Agra que conhecemos o Sr. La-la. Um senhor com cerca de 40 anos, que puxava um riquechó, que nem sequer era seu, casado, com filhos, vegetariano e que fez questão de andar connosco para todo o lado. Esta é uma daquelas pessoas que nos marcou nesta viagem e que nunca na nossa vida iremos esquecer, pois personifica a paz, a simplicidade, a humildade e a grande maioria dos indianos com que nos cruzamos. É uma pessoa pobre, com tão pouco e no entanto com uma felicidade, uma alegria de vida com o pouco que tem, que é uma lição de vida para qualquer um.

O Sérgio com o Sr. La-la

O Sérgio com o Sr. La-la

No segundo dia em Agra fomos visitar Fatehpur Sikri. Uma cidade a 50km de Agra, que para chegarmos lá apanhamos uma bela e típica camioneta indiana e fizemos uma viagem de 1hora. Esta região quase não tem turistas nesta época do ano (Agosto) devido ao seu calor e humidade intensos. Este calor torna extremamente complicado fazer qualquer coisa, até mesmo descansar.

Fatehpur Sikri foi a capital política do Império Mongol Indiano, sob o reinado de Akbar, desde 1571 até 1585, altura em que foi abandonada, aparentemente devido à falta de água.
Visitar Fatehpur Sikri foi extenuante, embora se trate de uma pequena vila. O calor era abrasador e complicou-nos a vida.
Existe um monumento muito bonito, feito em pedra vermelha, ao estilo mongol, todo trabalhado, onde tem no interior uma mesquita, um mausoléu feito em mármore branco e alguns túmulos. Para entrar, foi necessário tirar os sapatos (como já vem sendo habitual) e, para os homens que vistam calções, tapar as pernas com uma espécie de sari.

O Sérgio com as perninhas tapadas

O Sérgio com as perninhas tapadas

Tal como no Taj Mahal, aqui as pessoas também eram um pouco maçadoras, sempre a tentarem ser guias ou a tentarem vender tudo o que pudessem.

Desde que chegamos à Índia que somos interpelados pelos seus habitantes com as questões de rotina:

 – Witch country?

 – What’s your name?

 – Are you married?

 – Have you any children?

 – How old are you?

 – What do you do for living?

Imaginem isto constantemente, todos os dias! Acaba por ser caricato e divertido toda a curiosidade que despertamos.

A viagem de sonho na Índia terminou com o regresso a Delhi e, ainda lá estávamos,  já as saudades deste fantástico pais se faziam sentir.

Paharganj Area (Delhi) à noite

Paharganj Area (Delhi) à noite

Enquanto fazíamos a nossa prospecção para preparar a nossa viagem, foi-nos dito, por quem já cá tinha estado, que iríamos precisar de algum tempo para nos adaptarmos ao país. Na altura não percebemos muito bem o que queriam dizer, mas agora entendemos perfeitamente e concordamos, pois agora é que nos sentíamos bem para continuar. Nos primeiros dias passamos por momentos de angústia, de introspecção, em que a adaptação ainda não estava feita e em que tudo era difícil: a sujidade, o medo das doenças, o calor… Questionávamo-nos se era aquilo que tínhamos imaginado, desejado, se era esta a viagem que queríamos…

E ainda bem que a fizemos…

Nada foi como tínhamos imaginado, para o bem e para o mal, pois a Índia, sendo este subcontinente excessivamente povoado, torna tudo diferente, é verdadeiramente o País dos contrastes.

Realmente há muita pobreza, mais do que podem imaginar, vimos coisas que não queremos lembrar nem descrever, mas descobrimos que, mesmo sem nada, estas pessoas são felizes, calorosas, amáveis, simpáticas e complicam e exigem menos da vida do que nós.

Este país está cheio de potencialidades, económicas, humanas e geográficas, mas só se consegue ter noção disso estando aqui no meio, vivendo como eles e com eles.

A Ana a experimentar um sari (Paharganj Area  - Delhi)
A Ana a experimentar um sari (Paharganj Area – Delhi)

Agora entendemos que Viajar não e certamente tão fácil como fazer férias, mas é certamente mais enriquecedor. Passamos a admirar e a dar valor àqueles que por trabalho, prazer ou instinto Viajam, no verdadeiro sentido da palavra. Mais do que esperávamos, esta viagem passou a ser uma experiência de vida.

Por diversas vezes, nos mais variados locais, nos emocionamos verdadeiramente com este país, a sua cultura, energia, religiões e pessoas tão extraordinárias.

O Sérgio com os senhores onde compramos as mochilas e mais tarde outra mala (Paharganj Area – Delhi)
O Sérgio com os senhores onde compramos as mochilas e mais tarde outra mala (Paharganj Area – Delhi)

Esperamos um dia voltar porque ficou uma imensidão deste País por conhecer. E nesta imensidão por conhecer existem outras culturas, outras pessoas, outras religiões, outros dialectos, outra gastronomia…

 

Esta é uma viagem que nos povoa o pensamento com frequência, pelas pessoas que conhecemos, pelas experiências vividas, pelos sentimentos despontados, pela mudança que criou em nós. Podemos realmente dizer que nesta viagem não vimos a Índia, mas sim que Vivemos a Índia!

Namastê! (“O Deus que há em mim saúda o Deus que há em ti”)

 

Informação útil:

Moeda local: Rúpia

Fuso Horário: + 5.30 horas

Informações: http://www.incredibleindia.org/

                        http://www.lonelyplanet.com/india

Vacinação: efectuar a consulta do viajante, respectivas vacinas e mediação profilática

Conselhos: apenas beber água engarrafada; preferencialmnete comer comida vegetariana (muito abundante na India); evitar meses de Julho e Agosto; viajar sempre nos lugares mais à frente das camionetas

Documentos necessários: passaporte e visto (http://www.indembassy-lisbon.org/pt/emb_location.html#add)

 


Responses

  1. Muito bom a matéria impressionante, espero que postem outras aventuras pelo mundo, pois sou brasileiro e não sabia que a india era assim.

  2. Achei sua matéria rica em detalhes e muito interessante, eu tinha algum conhecimento sobre a India, mas certamente voce nos trouxe novas informações. Obrigado Amigo..!

  3. pra mim foi ótimo ver vcs nessa viajem pois trabalho com missoes e gostei de ver e ler algumas coisas de inda que o senhor jesus seja na vida de vcs amados!! graça e paz

  4. parabens adorei essa materia

  5. Muito bem escrito, excelentes fotos e definitivamente o meu género de férias:) Mas agora é a vossa vez de ficarem com inveja…vou para a China de mochila às costas:)

    • Obrigado pelas tuas palavras.

      Aproveitamos para te desejar boa viagem e se quiseres partilhar as tuas aventuras aqui no nosso blogue ou connosco podes fazê-lo.

      Boas férias


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