Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Julho 16, 2009

Escalada na Fraga da Nédia

A fraga da Nédia é  a maior parede de Portugal e situa-se na Serra da Peneda. Apesar de não ser contínua, os cerca de 500 metros de comprimento, a aproximação e principalmente a longa descida fazem com que seja uma escalada algo comprometedora, tornando-se num bom desafio para quem procura a incerteza do “terreno aventura” ou da escalada clássica.

Há já alguns anos que falávamos (Sérgio Duarte e o Alcino) em escalar na Nédia. Sempre que fazíamos a estrada em direcção à aldeia da Peneda, a paragem para admirar esta parede era obrigatória e começávamos assim a sonhar… O facto de escalarmos com alguma regularidade na Fraga da Meadinha, juntamente com o nosso colega Emanuel Maio, assim como também andarmos a forçar mais a clássica, deu-nos confiança e automatismos, e a ideia de escalarmos os três uma via na Nédia foi amadurecendo.

Uma vez tomada a decisão de escalar na Nédia, a via eleita foi a clássica “Narizes”, aberta por Pedro e Faria Pacheco em Agosto de 1986, com uma dificuldade máxima de 6b+ quando escalada em livre ou 6a+ em artificial.

Agendamos o dia 26 de Abril para realizar a escalada. No entanto, tivemos de adiar devido ao mau tempo. Este factor originou sucessivos adiamentos e ao longo do mês de Maio ganhamos a rotina de consultar os sites de meteorologia, até que na última semana do mês surgiu uma onda de calor e consequente ausência de chuva. Sabíamos que as temperaturas seriam altas, mas já estávamos cansados de adiar e a ficar impacientes. Assim, dia 29 de Maio, depois do jantar, partimos rumo a Tibo, uma pequena aldeia na Serra da Peneda, onde bivacamos no palco no centro da povoação.

O despertador foi programado para as 5.30 h, mas como ninguém conseguiu dormir, às 5.00 h começamos a arrumar o material de pernoita, tomamos o pequeno-almoço e às 6.00 h saímos para fazer a aproximação à via que sabíamos seria demorada, pois para além da travessia  do rio teríamos de abrir caminho através do denso mato e giestas que não permitiam ver a base da parede. Após a dura caminhada, finalmente chegamos à base da parede, por volta das 7.30 h.

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Acesso à parede, travessia do rio

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Acesso à parede, selva!!

Eram cerca das 8.00 h quando o Alcino iniciou a escalada abrindo os três primeiros largos. Percorridas as placas e fissuras no granito (em alguns locais bastante sujo), em cerca de 1.30 h alcançamos o patamar intermédio e preparamo-nos para iniciar a chamada segunda Nédia. Agora era a vez do Sérgio liderar, escalando os 60 metros de corda até ao final, usando alguma da vegetação existente como reunião e abrigo solar! A temperatura começava a aquecer e como levávamos cerca de 2,5 litros de água por pessoa, sabíamos que tinha que ser poupada de forma a fazê-la durar todo o dia.

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Alcino, Emanuel e Sérgio

No largo seguinte foi a vez do Emanuel escalar à frente, fazendo uma alteração no traçado original, pois no sexto largo existe uma fissura bastante estética à espera de ser escalada, que pertence à via Érea. É uma fissura que descai para a direita, juntando com a via “Narizes” no 8º largo revelando-se uma óptima opção, pois este pode ter sido uns dos largos mais bonitos de toda a ascensão. Assim continuamos alternando a liderança entre todos até ao 8º largo, onde a dificuldade aumentou consideravelmente. Primeiro um largo através de um diedro fissurado bastante sujo resolvido pelo Emanuel. O largo seguinte, não muito evidente, alternando a escalada por diedro e por placa, tornando a protecção um pouco precária, revelou-se um dos mais difíceis de itinerário, onde montar reunião não foi tarefa fácil e que foi resolvido pelo Sérgio. Nesta reunião acabaríamos por fazer uma pausa para descansar antes do Emanuel entrar numa inesperada e dura fissura, mas que acabaria por escalar exemplarmente.

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A fantástica fissura da via Érea

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Vistas do sétimo largo

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O calor começa apertar e a escalada também

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Um dos largos mais estranhos

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Emanuel a lançar-se a uma dura fissura

Aguardava-nos uma reunião bastante cómoda e com sombra “abençoada” antes de um dos largos mais duros no que respeita à escalada livre e ao factor psicológico, pois aqui existe o único ponto fixo de toda a via: um velho buril, que não transmite muita confiança, para transpor uma chaminé que mais acima se torna numa larga fissura impossível de proteger. Coube ao Sérgio escalar em primeiro e usando um estribo superou o passo mais difícil, percorrendo depois os cerca de 20 metros sem protecção, os quais não esperávamos serem tão expostos… Montada a reunião num cómico e doloroso azevinho, seguiram-se mais dois largos, o ultimo escalado em “estilo ensamble”, e 8.30 horas depois chegávamos ao topo da Nédia com uma enorme satisfação. O velho sonho tornara-se realidade.

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O passo em artificial

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Por fim o sonho tornado realidade!

Tiradas as fotos da praxe e arrumado o material, iniciamos a marcha rumo à Peneda. Devido a um “pequeno desvio“, o que esperávamos ser uma marcha tranquila veio a revelar-se bem mais longa, tornando-se mesmo penosa devido ao calor e à falta de água, mas cerca das 22.00 h chegamos finalmente à povoação conseguindo transporte de novo até Tibo onde tínhamos o carro e daqui seguiram-se mais duas horas até ao Porto.

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Bonitas paisagens no complicado regresso

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"Baptismo" o renascer do guerreiro!!!

Tratou-se de uma tremenda experiência no que respeita a aventura, sendo que o colectivo esteve em perfeita sintonia e provando que muitas das vezes a coisas correm melhor quando nos deixamos levar pela motivação!

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Por fim num café na Peneda

Itinerário realizado

Itinerário realizado

Por Sérgio Duarte


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