Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Julho 21, 2009

Roctrip 2009

Acima de tudo precisávamos de férias, mas também não nos víamos 15 dias sem escalar. Tendo em conta que a meca da escalada a nível mundial é já aqui ao lado, em terra de nuestros hermanos, e que sentíamos curiosidade em conhecer alguns locais, daqueles que normalmente vemos nas revistas, optamos pelos principais pontos de escalada mas que fossem igualmente locais que nos poderiam dar a conhecer belas paisagens.

Assim sendo, traçamos um plano aproximado das localidades e escolas que queríamos conhecer e onde queríamos escalar. Sabíamos apenas que queríamos ir para o Norte de Espanha, visto já termos explorado uma parte dos Pirinéus e nos ter agradado bastante.

A conselho do Cardinal, começamos as férias na escola de San Fausto, em Estella, em pleno País Basco, no coração de um famoso Caminho de Santiago, a cerca de 30 km de Pamplona. San Fausto é uma escola nova, com 90% das vias entre o V e o 6c+, sendo que apenas tem dois 7as e um 7c+ (que não encontramos). Apesar de não ser uma escola com grau elevado, o que para muitos pode ser uma desvantagem, é considerada por todos uma fantástica escola, de onde se destaca as vias longas (média de 30 metros, podendo atingir os 40), atléticas e muito técnicas, de calcário bem aderente e quase todas elas vias cinco estrelas.

Aproximação às vias: cerca de 15 minutos por um trilho bem marcado

Aproximação às vias: cerca de 15 minutos por um trilho bem marcado

Uma das paredes mais estranhas e bonitas de San Fausto

Uma das paredes mais estranhas e bonitas de San Fausto

 A rocha fica situada no alto de uma encosta, no meio de vegetação luxuriante, que protege do calor (pelo menos a quem está a dar segurança). Do alto das vias é possível avistar a bela paisagem em que está enquadrada e, ao desfrutar das belas vias de escalada, também é possível avistar as dezenas de grifos gigantescos (com cerca de 2m de envergadura) que sobrevoam mesmo sobre as nossas cabeças, ou quando estamos em vias mais altas, chegam mesmo a voar sob nós, sendo possível até ouvir o barulho destes animais imensos a cortar o vento. San Fausto revelou-se uma excelente escola, boa para ganhar ritmo para as férias que estavam a começar. É decerto um local a repetir.

Um grifo a sobrevoar as paredes

Um grifo a sobrevoar as paredes

O Sérgio a desfrutar

O Sérgio a desfrutar

A Ana numa via muito bonita e num momento de inspiração

A Ana num momento de inspiração, Via Txipita 5C+

Correndo o risco de sermos um pouco (muito) injusto, vamos tentar recomendar 3 vias de cada uma das escolas que visitamos. Aqui vão as de San Fausto:

Urtxintxa 6a

Txipita 5c+

Eutsi Goiari 6c

O destino seguinte foi Riglos e a viagem foi curta, pois a distância é de apenas 170km. Riglos é um pequeno pueblo de Aragon, na província de Huesca e aqui começamos a entrar na zona dos Pirinèus. Sobre Riglos já tínhamos ouvido algumas histórias e tínhamos visto fotografias das paredes imensas que se levantam sobre o pueblo, paredes de conglomerado que mais parecem um amontoado de godos prontos a desfazer-se a qualquer momento! (ou não)!!!

Riglos

Riglos

O aspecto da rocha

O aspecto da rocha

É um destino de eleição para os apreciadores da escalada livre, altamente atlética e de grande ambiente, com vias que podem atingir os 300 metros de altura, sendo que a média é de 200 metros. A maioria das vias encontra-se entre o V e o 6c+, se bem que escalar lá não se compara com nada, só mesmo experimentado e depois de o fazer não paramos de pensar o quanto heróicos foram aqueles que lá abriram as primeiras vias…

A imponência das vias

A imponência das vias

Los Mallos de Riglos

Los Mallos de Riglos

A ideia era escalarmos a normal do Puro… A vontade é muito bonita, mas para mim (Ana) depois de experimentar uma via de apenas um lance (6a), fez-me recuar um pouco. Os motivos são vários: aquele tipo de rocha tão peculiar, demasiado atlética, panças seguidas de panças, seguidas de tectos, repletos de godos que parecem querer saltar fora assim que lhes pomos um pé em cima, presas de mão cheia que não fazemos ideia como agarrar… Estranho, mas sempre bom. Gozamos 2 ou 3 vias, mas estava visto que não era aqui que queríamos desfrutar em pleno.

Aqui em Riglos, definitivamente aconselhamos a via La Normal do Puro – 6b (180m).

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Assim, no dia seguinte, rumamos até Rodellar, no deixando de primeiro fazer uma breve paragem em Huesca. Rodellar é um pueblo muito pequeno, situado no final de uma estrada que liga, por 30 km de curva contra curva, a estrada nacional mais próxima ao pueblo de Rodellar. Localizado no coração da província de Huesca, em plena Serra de Guara, é em termos de popularidade a escola nº 2. É uma escola em que predominam os extraprumos, as pinças, churreiras, tectos e deve a sua exploração aos franceses.

Rodellar

Rodellar

Ficar em Rodellar 3 ou 4 dias pareceu que estávamos noutra dimensão… O carro fica sempre no parque de campismo, porque este está situado mesmo ao lado do trilho de acesso às vias; o ambiente respira escalada ou canyoning (outra actividade muito apreciada em Rodellar); a estrada termina ali; estamos metidos no fundo de um vale; não existe sequer uma mercearia… Quando saímos de Rodellar, à medida que íamos subindo costa acima até à nacional, parecia que estávamos a voltar à civilização.

Ventanas del Mascún

Ventanas del Mascún

A escalar no sector La Fuente

A escalar no sector La Fuente

Rodellar é fantástico! Vive-se um ambiente fanático, fabuloso, com gente de todas as idades a tentar superar-se. O vale é de uma beleza incrível, com paredes de rocha gigantescas, calcário laranja, bosques, prados verdes, o rio sempre a percorrer no fundo do vale com uma água esverdeada cristalina (perfeita para refrescar do forte calor).

04 - rodellar (11)

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O único problema de Rodellar é a grande afluência, o que faz com que as vias de grau mais baixo estejam verdadeiramente polidas. Não obstante tal factor, aqui desfrutamos mais uma vez da escalada. Escalamos bastante, refrescamo-nos no rio, convivemos com o pessoal.

A Gruta do Ali Babá

A Gruta do Ali Babá

Fazendo o trilho de acesso ao fundo do vale, os sectores encontram-se logo ali. Depois, é só percorrer o vale, sempre na companhia do rio e de uns pássaros com o cantar mais mágico e polivalente que já ouvi, e os sectores vão surgindo uns a seguir aos outros, uns mesmo ali a serem banhados pelo rio, outros no cimo das encostas majestosas.

 

O Sérgio a desfrutar de uma bonita via recomendade pelos vizinhos de tenda

O Sérgio a desfrutar numa bonita via recomendada pelos vizinhos de tenda

Tratamo-no bem :-)

Tratamo-nos bem🙂

Em Rodellar desfrutamos e recomendamos estas vias:

Roxy la palmera 6b+ (Sector Criminal Tango)

Para ti 5+/6a (Sector Bikini)

Los Loros 6c (El Camino)

Saídos de Rodellar, mudamos de ambiente e de rocha: ambiente Pirenaico e Granito. Cavallers, em Caldes de Boi. Esta é considerada a zona mais promissora dos Pirenéus, com vias que chegam a atingir os 1000 metros, sendo a média de altura das vias de 50 metros.

Cavallers

Cavallers

A beleza envolvente é esmagadora. Montanhas rochosas imensas, gigantes envolvem o parque natural, algumas com picos ainda nevados, uma fauna e flora rica e deslumbrante… Um ambiente perfeito para desfrutar da escalada e da natureza.

A aproximação a um dos sectores

A aproximação aao sector Placa Tuka

O fantástico e invulgar granito do sector ....

O fantástico e invulgar granito do sector Placa Tuka

Existem sectores mais próximos do que outros e por vezes os trilhos de acesso aos sectores não estão nas perfeitas condições, mas também não nos podemos esquecer que estamos num ambiente Alpino, e que tudo vale a pena quando pomos mãos e pés neste granito fantástico, super aderente. Existe escalada para todos os gostos, desde paredes de granito altamente fissuradas, escalada em placa, tectos, diedros, chaminés, etc.

A escalar no sector ....

A escalar no sector Placa Tuka

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Em Cavallers definitivamente recomendamos o sector Placa Tuka escalada desportiva, mas também o Afrikan Wall. No entanto, Cavallers é um universo de vias e sectores para todos os gostos. Vias:

  • La Brigada, V (sector Placa Tuka)
  • Encanto de Canto, 6a (sector Placa Tuka)
  • Circulo Vicioso, 6b (sector Placa Tuka)

O tempo aqui é bastante mais fresco e por vezes o S. Pedro chega mesmo a pregar-nos algumas partidas. Tendo em conta o tempo inconstante, passados 2 dias, resolvemos fazer as malas e seguir para Siurana.

Siurana é um pequeno pueblo, localizado na Catalunha, e é considerada uma das melhores escolas da península. As suas paredes atraem escaladores de todo o mundo devido ao clima e à quantidade de vias duras, sendo que algumas das mais duras vias do mundo se encontram aqui.

Localiza-se no final de uma estrada de curva contra curva mas desta vez no cimo, a cerca de 9 ou 10 km de Cornudella de Montsant, a vila mais próxima. O pueblo é extremamente pequeno, mais uma vez sem sequer possuir uma mercearia, sendo necessário ir até Cornudella de Montsant para qualquer tipo de compra ou abastecimento de combustível. Siurana está inserida numa bela paisagem, com o rio a correr no fundo do vale (onde é possível tomar umas banhocas para refrescar do calor seco e abrasador – temperaturas sempre a rondar os 32ºC à sombra), onde predominam as culturas de grandes vinhos e azeite.

Siurana, esse pequeno aglomerado de 2 dúzias de casas, é um pueblo muito bem cuidado, muito bonito, com ruas típicas e casas recuperadas ao estilo da arquitectura local. Vale bem a pena perder algum tempo a percorrer as suas ruas. Existe um abrigo em pleno pueblo, mas a nossa opção foi sempre acampar, por isso ficamos no parque de campismo que se localiza a 1 km de Siurana.

Siurana
Siurana

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O parque de campismo, apesar de apenas possuir as instalações mínimas necessárias, é um local extremamente agradável. O ambiente que se vive transpira escalada. Aliás, o próprio parque é gerido por escaladores e as únicas conversas que se ouvem é sobre escalada, a discutir-se passos duros, encadeamentos de vias, etc. O bar do parque é muito porreiro, servindo boas refeições, bom ambiente e uma esplanada que chama por nós nas noites quentes.

Siurana tem mais de 400 vias equipadas, dispersas por 30 sectores, que seguem por linhas naturais com 25 a 45 metros de altura, proporcionando uma escalada dura, muito técnica, predominando as regletes e vias de grande resistência, frequentemente com passos muito duros nas entradas das vias. Convém não esquecer que é nesta escola que se encontra a mítica La Rambla (9a+) e o não menos mítico Golpe de Estado (9b?).

La Rambla
La Rambla

Escalar em Siurana não se revelou fácil… Micro-regletes e presas para pés onde é preciso ter muita fé, exigem muita técnica, resistência, concentração e motivação extrema.

Aproveitamos para nos refrescar na barragem nas horas de maior calor para depois voltar à rocha com outro ânimo.

Vias em Siurana recomendadas por nós:

Hielo Gris 6b (Can Gan Dionis)

Eto e Diferente 6a (Can Gan Dionis)

Kataplax 6c+

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Passados dois dias, e para mudar um pouco de ambiente, optamos por ir conhecer Margalef que fica a 30 km de Siurana, representando uma viagem de 1 hora por aquela estrada de montanha tão tortuosa.

Aqui o tipo de rocha é conglomerado, embora bastante diferente do de Riglos (bem mais pequeno). A escola tem cerca de 450 vias de escalada, com os graus a variarem entre o V+ e o 9a+ e com vias com uma altura média de 25 metros. Tanto Siurana como Margalef são escolas bastante quentes, onde normalmente se escalada do Outono à Primavera, mas é sempre possível encontrar sectores à sombra, o que alivia um pouco do calor abrasador.

Muito calor!
Muito calor!

Em Margalef conseguimos desfrutar um pouco mais da escalada, talvez por em Siurana as vias mais interessantes serem as de grau alto. Mas desenganem-se, porque em Margalef a escalda contínua a ser muito técnica, repleta de monos, bidedos, regletes e algumas presas estranhas!!!

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Mais uma vez aproveitávamos a hora de maior calor para ir ate à barragem, que também por lá existe, e, como não poderia deixar de ser, fomos ver a incrível via 9a+: Demencia Senil. Como é possível escalar tal coisa?!!

O Sérgio mesmo ao lado da Demencia Senil
O Sérgio “na” Darwin Dixit 8C
O aspecto das presas da Demencia Senil
O aspecto das presas da Demencia Senil

As nossas recomendações de Margalef:

Matini & the Rocks 6a (Ca la Marta)

Phaloids 7a (Ca la Marta)

Follet Tortuga 5+ (Can Torxa)

No dia seguinte voltamos a escalar em Siurana, num outro sector, recomendado por um escalador espanhol, sector que nos agradou bastante mais e no qual desfrutamos bastante da escalada.

De novo em Siurana
De novo em Siurana
O trilho de acesso ao sector

O trilho de acesso ao sector

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Regressamos a Portugal, passando mais uma vez por San Fausto. Aqui foi possível ver as diferenças que as férias já se faziam sentir na nossa escalada. O ritmo imposto ao corpo de 15 dias a escalar, a passagem por diferentes escolas, com diferentes tipos de rocha e de escalada, o à vontade, a atitude, a técnica… Tudo parecia estar a confluir, pois a diferença da nossa performance desde o inicio das férias quando lá tínhamos estado para o final das férias, notava-se a olhos vistos.

Agora resta-nos esperar para ver como nos vamos portar aqui nas escolas de terras lusas. Há projectos que ficaram por encadear antes das férias e estamos ansiosos por os agarrar e ver o que mudou.

As férias foram perfeitas! Todo este tempo a conhecer terras que, se não fosse a escalada, nunca ouviríamos falar e a possibilidade de aliar àquilo que tanto nos dá prazer, escalar, foi maravilhoso.

Mas, apesar de Espanha ser o núcleo mundial da escalada, agora que estivemos lá e vimos, podemos dizer com orgulho que temos pequenas e poucas escolas de escalada, mas com toda a certeza de que algumas delas não ficam em nada atrás das espanholas. A única diferença é que eles têm rocha até perder de vista!🙂

Informação

San Fausto:

 

Riglos:

 

Rodellar:

 

Cavallers:

 

Siurana:

 

Margalef:

  • Guia: “Costa Daurada” (este guia tem alguns anos e encontra-se um pouco desactualizado, mas no refúgio de Margalef é possível comprar os croquis devidamente actualizados por apenas 7 euros).
  • Informação sobre a escola: http://www.escuelasdeescalada.com/ficha.php?ID=0
  • Existe um refúgio no pueblo onde é possível ficar a dormir por cerca de 7 euros.

Responses

  1. Ainda há pessoas com sorte que fazem férias duas semanas seguidas (ou mais)!!! Só não percebi se as rochas e a escalada são desculpa para uma nova lua-de-mel, embora um pouco mais wild… mas há que variar! Parabéns! Vocês merecem!


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