Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Novembro 27, 2009

Marrocos

Da caixinha das lembranças do “era uma vez…”, recuperei uma viagem de aventura, que nunca se apagará da memória: Marrocos.

A primeira vez que fui a Marrocos (2003) fui com um grupo de amigos e colegas em jeito de viagem de final de curso. A verdade é que a viagem que a maioria estava a organizar não nos entusiasmava; era mais um daqueles paraísos turísticos, com tudo incluído, em que pouco mais se faz a não ser estar deitado numa praia de papo para o ar, com um local a trazer-nos bebidas, bebidas essas que se prolongam noite dentro ao som de música electrónica para que, no dia seguinte, já com a manhã perdida de tanto dormir, voltarmos à mesma rotina.

Não, não era isso que queríamos. E como o irmão de uma amiga nossa estava em Marrocos a trabalhar há cerca de 2 anos, tomamos esse como um destino perfeito. País diferente, aventura, cultura, usos, costumes, religião e gastronomia totalmente diferente dos destinos que tínhamos frequentado… E melhor, aqui tão perto!

Desta vez fomos de avião, em pleno mês de Abril. Depois andamos a percorrer Marrocos numa carrinha de 9 lugares, sempre com a companhia de um marroquino da inteira confiança do irmão dessa nossa amiga.

Foi uma viagem e tanto!! Adoramos, divertimo-nos, deslumbramo-nos… De tal forma que no ano seguinte quis voltar.

Desta vez, desencaminhei o meu grande e melhor amigo André, mais conhecido por Cuco, como daqui em diante será mencionado🙂

Além disso, os moldes da viagem seriam diferentes. Íamos no nosso carro, ao invés de ir de avião. Íamos por nossa conta e risco. Mas como eu já lá tinha estado no ano anterior, sabia os locais a visitar e sabia um pouco como me mexer dentro daquele País e no meio da população.

A viagem começa com as extenuantes e infindáveis horas de condução até chegarmos a Algeciras, no Sul de Espanha, onde apanhamos um ferryboat para Ceuta. Esta travessia também pode ser feita através de Tarifa, embora aqui se saia directamente em Tanger. Não sei se há vantagens de uma em relação à outra, mas em termos fronteiriços achei que seria mais fácil já estar no meu carrinho ao passar para Marrocos.

Comprar os bilhetes para o ferryboat é fácil, embora convenha não nos deixarmos enganar por qualquer um que anuncia venda de bilhetes. Mal se chega ao recinto do ferryboat somos abordados por dezenas de homens que dizem vender os melhores bilhetes e que nos levam à melhor agência de viagens. É certo que ganham comissões… Do outro lado da rua do recinto do ferryboat existem dezenas de agências de viagens onde se pode comprar os bilhetes.

Desembarcando em Ceuta resta dirigirmo-nos para a fronteira. Ora, aqui começa a aventura.

Mal nos começamos a aproximar da fronteira, somos mais uma vez assediados por dezenas de indivíduos que dizem facilitar-nos a entrada na fronteira, evitando as longas filas para aquisição do visto, a troco de algum dinheiro. Conselho de amiga: não se deixem levar por tal coisa; ou desaparecem com o dinheiro ou vão para as filas tal como vocês teriam de ir. Além disso, estar na fronteira marroquina à espera de um visto, nas intermináveis filas, faz parte da aventura que este País nos proporciona. Outro conselho de amiga: caso viagem com um carro que não esteja em vosso nome (o que era o meu caso) levem uma declaração devidamente assinada e autenticada, em que o proprietário vos autoriza a viajar com o carro. Caso contrário, apenas precisam de se fazer acompanhar pelo vosso passaporte.

Findos os infindáveis procedimentos fronteiriços lá arrancamos nós em direcção ao nosso primeiro destino: Chefchaouèn. Chefchaouèn é uma cidade localizada na região de Gomara, a 100 km de Ceuta. Estende-se pelos pés dos montes Tsuka e Megu, de onde provém seu nome, que em berbere significa “os cifres”. Devido à sua proximidade com Tanger e Ceuta, Chefchaouèn é um destino muito turístico, embora a sua popularidade também se prenda com a liberdade que existe nesta zona relativamente ao cultivo de cannabis. É uma cidade tranquila, muito simpática, mas ainda não era o choque cultural que procurávamos.

(5) Chefchaouen

Chefchaouèn

O nosso destino seguinte foi Fèz.

Em 2003, a caminho de Fèz ainda passamos pela cidade de nome Meknés, onde visitamos alguns pontos culturais de interesse e, claro, provamos a gastronomia local.

Mas, desta vez, Meknés, estava um pouco fora de rota, por isso decidirmos ir directos a Fèz, até porque eu queria explorar melhor esta antiga capital do País, mas que continua a ser a sua capital cultural e espiritual.

Fèz foi fundada no século IX e é local da mais antiga universidade do mundo. Atingiu o seu apogeu nos séculos XIII e XIV quando substituiu Marraquexe como capital do reino. O planeamento urbano e a maior parte dos monumentos – madraçais, foundouks, palácios, residências, mesquitas e fontes – datam dessa época. Em 1912 a capital política de Marrocos foi transferida para Rabat, mas Fèz permanece com um encanto e um estatuto incontornável e prova disso foi a classificação da Medina de Fèz como Património Mundial da Unesco em 1981.

(17) Fès
Fèz

A Medina de Fèz é um labirinto onde apenas convém entrar com um guia. Acredito que 10 minutos a percorrer aquelas ruelas sozinhos e teríamo-nos perdido para toda a eternidade na Medina de Fèz! J Como não queríamos arriscar tal coisa, pois a nossa viagem ainda estava no inicio, optamos por, no nosso hotel, tentar arranjar um guia. Assim, o dono do hotel “cedeu-nos” a sua sobrinha, uma jovem rapariga muito simpática e prestável.

(34) Medina - Mesquita Karaouiyine - Fès

Madraçal na Medina de Fèz

Percorremos aquele labirinto, nunca nos distanciando da jovem, pois após duas esquinas eu já não fazia a menor ideia de como voltar para o hotel. A Medina de Fèz é um local mágico, perdido no tempo, em que nos sentimos transportados para outro local, outra era, em que tudo está estrategicamente organizado, desde as lojas às zonas de fabrico: talhos, frutarias, mercearias, sapatarias, têxteis, louças, mobiliário… tudo tem o seu local próprio.

(35) Medina - Zona dos Metais - Fès

Homens a trabalhar estanho

(36) Medina - Zona dos Curtumes - Fès

Zona dos cortumes

(39) Medina - Farmácia - Fès

Na farmácia de um marroquino muito simpático

Satisfeitos com o deslumbramento de Fèz, seguimos para o nosso próximo destino, Azrou, deixando pelo caminho a bonita e europeia cidade de Ifrane.

(37) Alto Atlas

Alto Atlas (em 2003)

(47) Azrou

A caminho de Azrou (em 2003)

Azrou, enquanto cidade, não tem grande interesse. Mas é lá que fica uma das grandes maravilhas naturais de Marrocos: a fabulosa floresta de cedros. Vale a pena visitar Azrou só para poder desfrutar deste espaço: cedros gigantescos, do tamanho de gigantes, que se esgueiram em direcção ao céu, que filtram os raios de sol e criam um ambiente de fantasia… E para colmatar, a divertida companhia de dezenas de macacos que simpaticamente se sentam à nossa beira à espera de um petisco.

(57) Floresta dos Cedros - Azrou

Floresta dos Cedros

(61) Floresta dos Cedros - Azrou

Um petisco para os macacos

Seguimos rumo a Tinerhir, cidade localizada no sudeste marroquino, no inicio do Alto Atlas. Marrocos é um país cheio de belezas naturais de tirar o fôlego e Tinerhir não foge à excepção pois é aqui que se situam as Gargantas do Todre (Gorges du Todra).O cenário é espectacular: centenas de metros (chegando mesmo a tingir os 300m) de paredes de calcário laranja, em corredores por vezes com apenas 10 metros de largura. É um cenário deslumbrante e esmagador. Aqui, também é possível ver cabras empoleiradas nestas escarpas, a saltitarem de um lado para o outro (quem me dera escalar assim…) e habitantes locais, com as suas vestes tradicionais e o seu meio de transporte de eleição: os burros🙂

(70) Tinerhir

Tinerhir

(101a) Tinerhir - Gargantas

Gargantas do Todre

Seguimos em direcção ao deserto, para nos encontrarmos com o nosso amigo Ali, um Berbere que vive no deserto com a sua família e que ganha a vida através do turismo. Conheci-o na minha primeira viagem a Marrocos e é uma personagem caricata, alta, esguia, com as suas vestes tradicionais e umas mãos gigantes repletas de anéis. É um homem simpático, educado e constantemente preocupado com o nosso bem-estar.

(68) Caminho para Deserto Mhamid

O Ali a servir o tradicional chá

Na primeira viagem, passamos 2 noites no deserto, uma num albergue do irmão do Ali, localizado em Merzouga (um luxo, em pleno deserto, pelo simples facto de ter quartos-de-banho e duches) e outra nas tendas berberes do Ali em plano deserto de Mhamid.

(52) Albergue - Merzouga

O deserto visto de Merzouga

Este ano, o plano seria passar 1 noite com o Ali, no albergue em Merzouga: a noite da véspera do meu aniversário.

(63b) Albergue - Merzouga

O Albergue em Merzouga

Liguei ao Ali, assim que passei a fronteira marroquina, a dar-lhe conta dos meus planos, pois era Agosto e tudo o que não queria era estar em pleno deserto em pleno mês de Agosto. No entanto, ao falar ao telemóvel com o Ali ele ficou entusiasmado por ser o meu aniversário e insistiu (numa daquelas maneiras que ficamos sem saber como recusar) para que fossemos antes ter com ele a Mhamid. Eu bem dizia que não tinha jipe, etc., etc.… Mas, ele tinha solução para tudo:

– Ali, estava a pensar ir até Merzouga e passar lá a noite de 13 para 14.

– Merzouga, não. Ficam no acampamento aqui em Mhamid.

– Mas… Era melhor Merzouga.

– Não, não. Aqui é mais tranquilo.

– Mas… É Agosto, vai estar demasiado calor.

– Não! Está bom.

– Mas eu não tenho jipe…

– Não faz mal! Eu vou buscar-vos a Tagounit!

E lá ficou assim agendado.

No dia 13 de Agosto o Ali foi buscar-nos a Tagounit e seguimos em direcção a Mhamid, onde o Ali tinha o acampamento montado.

(94) Perto de Tagounit

Caminho para Tagounit

Chegados ao acampamento, fomos recebidos, como habitualmente, com umas calorosas boas-vindas, acompanhadas por um belo chá, preocupação constante do Ali manter-nos bem hidratados com este chá bem doce. A par do chá, o Ali ainda me ofereceu uma túnica:

– Cet pour toi.

– Pour moi?!

– Oui. Pour climatizer…

Hmmm… túnica preta no meio do deserto, debaixo do abrasador calor de Agosto… este fulano não deve estar bem…

– Ah… merci! Merci beaucoup.

Tal túnica veio-se a provar bastante fresca, ao contrário do que seria de imaginar.

(92) Deserto Mhamid

A túnica "pour climatizer" e a "minha amiga" que me levou até ao oásis

Passamos a primeira noite deitados nos longos tapetes sobre a areia, a conversar com o Ali e os seus amigos e na companhia de uma portuguesa e de um holandês. Comemos bruchetas (na escuridão ninguém faz ideia do que está a comer, mas veio a revelar-se serem bruchetas de rim), salada, sumo de laranja… O que quiséssemos, o Ali arranjava. Podia demorar 1 hora ou mais, e não faço ideia onde iam buscar estas coisas extras que pedíamos, mas o Ali lá nos arranjava tudo o que queríamos. É um tratamento VIP e personalizado com todo o conforto que uma vida nómada pode proporcionar.

(90) Deserto Mhamid

No deserto em Mhamid

Dormimos ao relento, debaixo de um mágico céu estrelado de uma lua nova.

Bem, o plano seria passar só uma noite. Mas o Ali tem um charme persistente e lá nos convenceu a ficar mais uma noite:

– Rester ici, ce soir. Demain, vous vá dans chameau pour un oasis. Vous mange n’importe quoi là-bas, vous pourrez vous rafraîchir et à la fin de la journée, retour pour un bon dîner.

– Hmmm… Bon… Mais il fait très chaud! L’oasis est loin?

– Non! Environ 2 heures.

Ah?! Duas horas?! De camelo?! Pelo deserto?!

– Calibré quand la fraîcheur du petit matin du scrutin dans l’après-midi.

Como se resolvesse, sair cedo pela fresca e regressar à tarde.

Na manhã seguinte, a portuguesa foi-se embora e lá fomos nós, pela fresca, deserto dentro: eu, o Cuco e o holandês (um rapaz bem divertido), em direcção ao tal oásis.

Desenganem-se aqueles que pensam que andar de camelo é algo fantástico. Bem, também não é assim um DRAMA. Mas os camelos conseguem ser uns animaizinhos muito temperamentais, com bastante mau feitio e toneladas de vontade própria.

(95) Deserto Mhamid

O Cuco e o Holandês a tentarem domar as feras

A tarde no oásis foi literalmente refrescante e revigorante.

Estávamos a divertir-nos à grande! Mas, de repente a brisa, a ténue brisa quente que corre pelo deserto, mas que não deixa de ser uma brisa, pára. Nesse momento parece que a nossa pele tosta. E não havia túnica “pour climatizer” que ajudasse a aliviar os 250ºC daquele forno eléctrico!! Eu só pensava: ou a brisa volta, e volta rápido, ou eu vou telefonar ao Ali para nos vir buscar de jipe! Agora que penso nisso, nem sei bem se tinha rede🙂

(87a) Deserto Mhamid

Tempestade de areia

Mas, a brisa voltou e até voltou com uma “chuvita”. Reparem que escrevi “chuvita” entre aspas. Isto porque de facto nós sentíamos umas gotas a caírem-nos na pele, mas o calor era tanto que apenas ficava o ligeiro toque fresco, porque vestígios de água… nem vê-los! Antes de chegarem ao chão as gotas evaporavam de tanto calor.

Nessa noite tivemos direito a um belo tagine, já que era o meu aniversário. O Ali presenteou-me com uma pulseira e ainda nos enfeitaram com uns enfeites berberes🙂

(107) Deserto Mhamid

O deserto é um lugar mágico! Sentarmo-nos nas dunas, em silêncio e absorver tudo o que os nossos sentidos permitem, é um turbilhão de sensações: a pele sente com leveza a brisa quente que parece envolver-nos num abraço; os ouvidos são inundados por um silencio que chega a ser “ensurdecedor”; os nossos olhos, livres das luzes das cidades, vêm maravilhas que nunca conseguiam ver e alcançam para lá do horizonte; o cheiro seco das areias do deserto invadem-nos o corpo… É verdadeiramente uma experiência mística.

No dia seguinte, despedimo-nos com pompa e circunstância do Ali e toda a sua comandita e seguimos viagem para o nosso próximo destino: Marraquexe! Pelo caminho passamos por Ourzazate onde estão localizados os estúdios de cinema marroquinos, onde são frequentemente filmadas grandes produções holiwoodescas.

(94a) Caminho para Ourzazate

Caminho para Ourzazate

(97) Ourzazate

Ourzazate

Marraquexe… Ah! Marraquexe! Talvez seja a cidade marroquina da minha eleição. Ou melhor… A praça Jemaa el-Fna é o meu local de eleição em todo o país: fervilha como uma noite de S. João; está viva como um sambódromo; inundada de aromas; luzes; tendas de alimentação; dentistas; tatuadores; músicos; malabaristas… É incrível!

(129) Marrakech

Encantadores de serpentes na praça Jemaa el-Fna

A primeira vez que pus um pé fora do carro para pisar a praça Jemaa el-Fna, foi na minha primeira viagem a Marrocos. Apesar dos avisos, nada me fazia preparar para aquilo e, em conjunto com a admiração, vieram as náuseas. É que naquele lugar tudo se mistura: cheiros de 1001 comidas a serem confeccionadas; estrume e urina dos animais (cavalos, burros, cães, etc.) que por ali andam; o cheiro das especiarias que se vendem no mercado… É uma parafernália de cheiros que num primeiro impacto nos faz duvidar se iremos conseguir comer ali no meio.

Mas consegue-se… E como se come bem! A barraca nº 1 foi-nos sempre recomendada pelo irmão da minha amiga que lá morou e foi sempre a essa que fomos. Comida boa, saborosa, variada, com um atendimento prestável e extremamente simpático. Podemos descrever a comida como umas tapas marroquinas: pede-se um pratinho disto, outro daquilo…

(115j) Marrakech

Barraca nº1

Na primeira vez que lá estive, tudo era novo para mim e não me aventurava muito a nadar por aquele praça imensa, super povoada, extremamente confusa, em que tanta coisa acontece à nossa volta que temos os canais dos nossos sentidos verdadeiramente congestionados de informação.

Na segunda vez, não… Já sabia com o que contava; os sentidos já estavam habituados e mais relaxados, selectivos; já sabia como me movimentar, o que fazer, como estar e onde estar. Sentia-me em casa! É fantástica a sensação de visitar um país de cultura tão diferente da nossa pela segunda vez e sentirmo-nos em casa, estarmos perfeitamente à vontade. Foi algo que adorei!

O Cuco adorou todo aquele frenesim da praça. Delirou! A personalidade expansiva dele estava no meio de um ambiente igualmente expansivo e a sintonia não podia ser melhor nem maior.

Jantamos na barraca nº 1, deambulamos pela praça a absorver todo aquele ambiente, fizemos tatuagens de henna… e fizemos compras. Quer dizer, nessa noite o Cuco abandonou-me lá, no meio da praça a fazer a minha tatuagem e foi regatear tabaco com os marroquinos. Fiquei um longo pedaço ali, rodeada por meia dúzia de tatuadoras, em amena cavaqueira com elas.

(127) Praça Jemaa el-Fna - Marrakech

Tatuadora de henna

Desfrutamos da fantástica cidade que é Marraquexe e do que ela nos tem para oferecer: o mercado, os palácios, museus, ruas, ruelas… e claro, as riads. O Ali, antes de airmos do deserto, reservou um quarto numa riad em Marraquexe, para nós. E que bela riad!

As riads são antigas casas que ultimamente têm sido recuperadas por estrangeiros ou locais endinheirados e as têm transformado num turismo de habitação de luxo. Passeando pelas estreitas ruas das medinas e das cidades, nem damos conta da existência destes locais de sonho, pois pelo lado de fora, apenas se vêm portas pequenas e muros altos intermináveis. Nada faz adivinhar o deslumbramento que nos espera assim que passamos para o interior. Estas casas são frescas, construídas em torno de um pátio central. São verdadeiros oásis, em que impera o silêncio, a descontracção e o luxo.

(129) Porta da Riad - Marrakech

Porta da nossa riad

(128) Riad - Marrakech

Varanda da riad para o jardim interior

Ao fim de 3 dias em Marraquexe a desfrutar da Medina, da praça Jemaa el-Fna, dos palácios, museus e tudo o mais que Marraquexe tem para oferecer, seguimos rumo a Essaouira.

Essaouira é uma cidade na costa marroquina, cujo conjunto histórico se encontra classificado como Património Mundial pela UNESCO. Nele destacam-se as muralhas e baluartes, onde ainda podem ser apreciadas as antigas peças de artilharia portuguesas, assim como a primitiva igreja e as fortificações na pequena ilha de Mogador, fronteira ao porto. É uma cidade encantadora, mas como a maioria das cidades costeiras, com grande afluência de turismo. Aqui pratica-se surf, windsurf, kitesurf; as ruas da cidade e da Medina estão repletas de galerias e exposições de arte, desde artesanato até pintura; a praça central, à noite, invade-se de locais e turistas para assistir a concertos… É uma cidade encantadora.

Mas, para o Cuco teve pouco de encantador. Durante a viagem Marraquexe-Essaouira o Cuco deu sinais de estar adoentado, coisa que se veio a confirmar pelo seu estado debilitado assim que chegamos a Essaouira. Para dificultar, tudo o que era hotel, pensão, etc., estava cheio. Por um acaso, um rapaz de uma pensão onde fomos pedir informações, encaminhou-nos para uma casa onde poderíamos alugar um quarto. Foi ouro sobre azul!!

O dono da casa chama-se Tarek e estava lá de férias com a sua irmão, cunhado e sobrinhos. São uma família de classe média-alta, muito cultos, extremamente prestáveis e muito calorosos. Trataram do Cuco como se de um familiar se tratasse: chamaram um médico lá a casa, fizeram-lhe canja, foram ao mercado comprar medicamentos, fruta… Foram incansáveis. Eu sempre comi na praça Jemaa el-Fna e em vários locais menos recomendáveis, e sempre comi de tudo; nunca fiquei doente em Marrocos (o Tarek diz que eu devo ter uma costela marroquina :-)), mas o Cuco apanhou uma forte intoxicação alimentar e, enquanto ele recuperava, eu passeava sozinha pelas ruas de Essaouira. Adorei!

No dia seguinte de manhã o Cuco acordou como novo, esganado de fome, pronto para tomar um belo pequeno-almoço. E assim foi: tomamos o pequeno-almoço com a família do Tarek e passamos toda a manhã no terraço a discutir religião, política, viagens, etc. Uma família encantadora que nos deixa muitas saudades.

(160) Casa do Tarek - Essaouira

Em casa do Tarek

Impossibilitados de ficar mais tempo com o Tarek, pelos poucos dias de férias que nos restavam, seguimos em direcção a norte, rumo a Casablanca, fazendo uma pequena paragem em El-Jadida.

El-Jadida é a antiga Mazagão, cidade fundada como entreposto comercial. As fortificações portuguesas de Mazagão foram inscritas na lista do Património da Humanidade pela UNESCO em 2004. Do conjunto, destacam-se vários edifícios, sendo que visitamos a antiga cisterna.

Casablanca é uma das cidades mais turísticas de Marrocos. É uma cidade cosmopolita, capital económica, bastante ocidentalizada. De visita obrigatória é a Mesquita Hassan II. É o tempo mais alto do mundo e o segundo maior, logo a seguir à Mesquita de Meca. É das poucas mesquitas do mundo muçulmano que permite a visita a turistas não muçulmanos. Esta é apenas uma das razões pelas quais recomendo não perderem a oportunidade de visitar esta Mesquita. É deslumbrante, até mesmo tecnológica, com chão aquecido, para os dias mais frios, e tecto que se abre automaticamente, para os dias mais quentes. Foi um local que me marcou pela beleza, magnificência, energia e paz.

(11) Mesquita - Casablanca

Mesquita Hassan II

Já em recta final da nossa viagem, passamos por Rabat, capital do País, cidade que não nos deixou uma boa imagem, devido à descaracterização da própria cidade, a pouca simpatia por parte das pessoas e até alguma violência, como roubos.

Seguimos para Tetouan, a última paragem antes de cruzar para território europeu. Estas cidades da costa norte, já próximas da Europa, estão um pouco descaracterizadas, bastante ocidentalizadas, onde a pobreza já no incomoda. Não que no resto do País não se veja pobreza. Vê. Vê-se pobreza e muita sujidade. Mas estão num contexto diferente… Algo parecido com as nossas aldeias do interior, em que as pessoas têm pouco, mas são felizes e sobrevivem com o que a terra lhes dá. Aqui, a pobreza é extrema e quem não tem nada, não tem mesmo nada, nem há terra a que recorrer.

Atravessando para a Europa e deixando território africano muçulmano para trás, desejamos avidamente chegar a casa, mas deixando sempre um pedaço de nós neste País encantador, repleto de pessoas amáveis. Está aqui tão perto e está repleto de paisagens, pessoas, gastronomia, vivências tão diferentes das nossas.

Vale a pena ir!

Informações:

Quando ir: a melhor altura é na primavera, pois o clima é mais ameno e possibilita um contraste meteorológico, desde a neve no norte ao calor no sul. Além disso, os preços não estão tão inflacionados e é possível regatear melhores preços.

Passaporte: é necessário

Vacinas: convém fazer a consulta do viajante

Tempo necessário para fazer um trajecto do género do descrito aqui: 2 semanas

Condições rodoviárias: não existem auto-estradas, com excepção de um troço perto de Casablanca. Mas, no geral, a estrada nacional está em boas condições e conduzir e orientarmo-nos no País com um mapa é bastante fácil.

Onde ficar: é fácil arranjar alojamentos nas cidades, desde parques de campismo a pequenos hotéis ou albergues, passando por alojamentos de luxo.

mapa

Por Ana Duarte


Responses

  1. Ana, achei um delírio. Já te tinha ouvido contar tudo isto na 1.ª pessoa, mas mesmo assim, li cada palavra com concentração total. Há muito que tenho o sonho de passar uma noite no deserto. Fizeste-mo relembrar! Obrigado. Beijinho!

  2. Na proxima tambem posso ir? Beijos

  3. Adorei as fotos.
    Beijos,

    Pat

    Ok, tb fiz um blogue mas ainda não tenho coragem de o mostrar (é tão futil).
    Bjos

    • Oh, prima gira… Obrigada!!! Quanto ao teu blogue… Tens que me dizer qual é e eu depois decido se é fútil ou se é o máximo🙂
      Beijocas grandes


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