Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Junho 2, 2010

Nova via de Autoprotecção no Salto

Esta pequena aventura remonta-nos ao final do ano passado, últimas actividades de um ano que foi frenético e de profundas alterações para a zona de escalada da Srª do Salto.

A Sr.ª do Salto é uma zona natural, impar, nas proximidades do Porto, mais propriamente em Aguiar de Sousa – Paredes. Um canhão que o Rio Ferreira se encarregou de esculpir com o passar dos tempos, abrindo um vale por uma formação rochosa composta por xisto e quartzito, bem notórios pelas suas placas moldadas de uma forma única aquando da sua formação.

Nas margens do rio surge um local simpático que nos transmite uma certa calma mas que com o passar do tempo tem-se vindo a degradar, quer seja devido aos desportos motorizados que percorrem os seus trilhos, poluição de um rio que muito tem para oferecer, quer seja pelo lixo deixado nos pic-nics de verão e ultimamente e mais catastroficamente pela construção de uma auto-estrada que atravessa assim uma zona classificada como “Parque Natural”.

Aberração do Salto

É talvez o local com maior oferta de percursos verticais nas proximidades do Porto, com vias de desportiva e clássica e que ao longo dos últimos anos tem presenciado as diferentes gerações apoderarem-se das suas fragas em troca de óptimas sensações!

Nos últimos 3 anos o Salto sofreu profundas alterações, das vias sujas de clássica e as características vias de desportiva passou a ter vários sectores de desportiva com inúmeras possibilidades, sendo que a sua revelação surgiu no ano passado quando o Salto proporciona à comunidade a primeira produção cinematográfica do mundo da escalada, o épico filme “Trilogia do Aço”, realizado pelo Sérgio Martins do blogue Nortebouldering.

A história que vos trago não é tão relevante, mas seria digna de um filme de comédia!

Nas minhas correrias para o salto para escalar no sector “Suaves Prestações” observei uma fissura que se encontra do lado oposto já no final do sector “Fraga do Cavalo”. Uma fissura em travessia que nos levaria, em dois lances, a um patamar de onde se poderia iniciar um último largo vertical. No entanto, o mais caricato seria a aproximação à via!

Vista do cima, sector Suaves Prestações

Após uma breve pesquisa junto das autoridades competentes pude comprovar que ninguém deveria ter passado em tal espaço e posto isto comecei a sonhar com a epopeia e a tentar convencer quem estivesse de mal com a vida e desejasse passar um mau bocado a meu lado na abertura desta linha.

O Emanuel (se calhar de mal com a vida) lá aceitou, e então um sábado de manhã bem cedo lá seguimos pelo canhão que o rio escavou. De pedra em pedra, primeiro pelas margens, depois pelo meio do rio, equipados com material de clássica, calções e sandálias, não fosse isto a aproximação à base da via uma espécie de canyoning pelas águas duvidosas deste rio!

Emanuel na árdua aproximação à base da via

Novamente a aproximação à base da via

Montados num socalco cavado pela água, 2 metros acima do seu nível, lá montamos a reunião para o segurador. Saí então para uma travessia por uma fissura cega para as mãos e sem grandes pés e sempre com presas minúsculas e bem rombudas, fruto do desgaste da água e avancei para uma posição mais cómoda, onde pude colocar de uma forma fiável um “friend” que me transmitiu uma falsa segurança (em caso de queda acabamos nas pedras do rio). Segui pela travessia enquanto a fissura ia ganhando dimensão. Por fim, e depois de uma passagem um pouco mais técnica por de baixo de um tecto, entrei num pequeno patamar bastante incómodo onde, com alguma imaginação, consegui montar uma primeira reunião.

Sérgio a iniciar a via; talvez o passo mais duro da via.

Emanuel aproximar-se da primeira reunião

O último passo de confiança antes da reunião

Coube ao Emanuel a abertura do segundo largo com uns passos técnicos e de confiança bastante interessantes, continuando em travessia por baixo de um tecto, até ao ponto onde fomos obrigado, a seguir na vertical, que acabaria por dar num grande patamar.

O plano era subir o último largo vertical até ao cimo da parede, ainda que tivéssemos que escalar um terceiro largo bastante vertical mas ao mesmo tempo muito sujo (neste patamar existe a hipótese de rapelar para a margem do rio).

Emanuel a abrir o segundo largo, preparar-se para dobrar o tecto

O Emanuel usou do seu engenho e experiência para não causar sérios danos devido aos blocos e pedras instáveis, isto para além da muita erva que se ia encontrando. No final, depois de superar um passe periclitante, o Emanuel monta reunião numa plaquete velha de uma via que imaginamos ser a “Baptismo”, aberta por Paulo Oliveira em 1995 e que começa apenas no patamar.

Abertura do último largo, comum com a via Baptismo

Por fim, aproveitamos uns topes no cimo da falésia e rapelamos mais uma vez para as margens do rio Ferreira com uma sensação de que voltaríamos a ter que entrar nas suas águas para regressar ao carro!

Vistas para o outro lado do rio

A via acabou por ser aberta por mim e pelo Emanuel, de baixo para cima, sendo que aconselhamos prudência se pretenderem fazer o último largo e assim saírem por cima.

Não sendo um grande feito, os dois largos da via propriamente dita merecem uma visita pela escalada em si, mas também pela actividade no todo, os dois primeiros largos conseguem-se fazer quase sempre por um terreno relativamente limpo.

Informações:

Nome: Jardim Suspenso
Aberta por: Sérgio Duarte e Emanuel Maio num qualquer dia quente do super ano de 2009
Grau: 6ª+, V+, V+ (o último largo é a via “Baptismo” de Paulo Oliveira)
Atenção: no primeiro largo, a comunicação é dificultada pelo desnível e pelo barulho das águas
Material: 2 cordas de 60 metros, cintas para esticar os pontos, friends, microfriends, stopers

Primeiros largos

Últimos largos

Jardim Suspenso
Aquando do meu inicio no mundo da escalada várias vezes tive o prazer de compartilhar momentos verticais com um amigo que anos mais tarde viria a ver a sua vida suspensa num acidente de moto numa fase mais conturbada da sua vida. Fica aqui uma simples homenagem.

Por Sérgio Duarte


Responses

  1. Muita adrenalina!


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