Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Dezembro 16, 2011

Escalada Clássica no Naranjo de Bulnes, Picus de Europa

 

“Direta de los Martinez”, “Paso Horizontal”, “Cepeda” e “Vuelo del Dragon”

 

Ainda que a nossa história esteja a repleta de nomes fantásticos e termos imaginários, a protagonista é a montanha das montanhas, a rainha das montanhas Espanholas. Ainda que para nós (Alcino, Emanuel, Fred e eu, Sérgio) estar aqui parecesse um conto de fadas, as vivências aqui narradas são bem reais e felizmente, depois de muito sonharmos, a viagem até aos Picus acabou mesmo por acontecer!

Terra dos sonhos

“Vai ser sem dúvida este ano…” – este era o plano para o final do Verão de 2010. Mas, a paternidade revelou-se prioritária e uma experiência bem mais real!

Finais de Julho 2011 parecia-nos fantástico. A ideia era fugirmos das romarias de Agosto e, se possível, apanharmos condições atmosféricas mais favoráveis. Por isso, estava decidido e era altura de fazermos os nossos planos.

Na verdade, a via “Amistad com El Diablo” na face Este foi sempre o meu principal objectivo.

Depois da minha primeira incursão pelo Naranjo esta face fascinou-me e passou a  fazer parte dos meus planos. Ao ver os muros verticais de calcário que a Este ostenta decidi pesquisar qual a via que me parecia oferecer o melhor itinerário e sem dúvida que a Amistad era das mais recomendadas. Fontes próximas asseguravam-me que o mais certo era não estar sozinho na via e isto desagradava-me mas, sendo o Naranjo, só tinha que aceitar. Na última semana, ao reunir a informação para a escalada, dei de caras com uma descrição que me transportou no tempo. Depois de mais de uma ano a sonhar, em breves minutos altero a minha ideia principal e eis que tinha encontrado a via que me parecia encher as medidas…
 

Rapidamente passou a semana e num piscar de olhos estávamos nós carregados com mais de 20kg às costas e com um ambiente que, ainda que húmido, era perfeito para este tipo de aproximação.

Prontos para um belo passeio

 

O caminho de aproximação ao Refúgio Veja de Urrielo é, para quem nunca andou por estas paisagens, uma belo exemplo do que os Picus de Europa têm para oferecer. Picos de calcário cinzento que se erguem de pequenos prados verdejantes abruptamente, como que a apontar para o céu. Não sendo montanhas muito altas são sem dúvidas paisagens com um aspecto austero e agreste que merecem muito respeito. A marcha de aproximação é um belo passeio, sempre acompanhados por uma banda sonora proporcionada pelos rebanhos que pastam tanto nos terrenos mais escarpados como nos pequenos bosques de faias que podemos deslumbrar pelo caminho. Não fosse o excesso de peso e este tinha sido um delicioso passeio.

 

Paisagens dos Picus

 

 

As últimas casas que avistamos, neste caso, um pequeno refúgio

Embora se tratasse da minha segunda visita esta era a primeira vez que tinha a oportunidade para me regalar com as vistas; o tempo característico dos Picus tinha-nos privado da primeira vez.

A ideia era bivacarmos junto do refúgio e fazermos a nossa vida em total autonomia e a pequena tenda que carinhosamente transportávamos era apenas para uma eventualidade que acabaria por surgir logo no primeiro dia. Como já é hábito, as Astúrias oferecem uma meteorologia única que pode mudar em poucos minutos, embora nada fizesse prever que quatro marmanjos tivessem que passar várias noites numa tenda minúscula que devidos às chuvas torrenciais e sensação térmica que ao rondar os 0ºC não convidava ao bivaque. Mas afinal onde para o verão?

 

A nossa casa para as próximas noites

Escusado será dizer que choveu torrencialmente toda a noite e o vento forte e as baixas temperaturas fizeram que a nossa estadia neste pequeno espaço se prolongasse até as 12h e que a estas horas, quando finalmente a chuva cessou, já os poucos visitantes tinham deitado por terra as suas esperanças de escalar e um a um abandonavam o refúgio. 
 
Como quem espera desespera, decidimos aventurarmo-nos pela face Sul e esperar não dar a dolorosa aproximação como perdida. Uma escalada na Face Sul sempre dava para ambientar e não se dava o tempo por perdido. 
 

Penosa aproximação à face Sul

 

O Alcino e Emanuel decidem estrear-se no Naranjo com a clássica “Direta dos Matinez” enquanto eu e o Fred decidimo-nos pela via do “Paso Horizontal”. Não deixa de ser impressionante que esta via que nos oferece um ambiente único foi aberta em 1928 em solitário pelo herói de Manuel Martinez. O primeiro largo é simples e conduz-nos por um esporão onde é fácil proteger o segundo largo. É algo que não esperávamos encontrar nesta via e o Fred inicia-o, revelando-se um espectacular largo de fissura (neste caso em canelizo), de início quase vertical e termina praticamente 40 metros depois. O famoso largo do passo horizontal, uma bela travessia que, embora seja fácil de proteger, nos oferece um ambiente muito particular, levar-nos-ia ao encontro das únicas pessoas que escalavam o Naranjo nesse dia: o Emanuel e o Alcino.

 

Fred no ínicio do segundo largo: 40 metros de fissuras

Fred no 2º largo da via "Paso Horizontal"

 

Frederico na via Paso Horizontal

 

Fred a chegar à reunião que inicia o largo mais popular da via

 

Sérgio a meio do Paso Horizontal. Grande ambiente!

 
 
Reunidos os 4, decidimos fugir com rapidez da gélida sombra para alcançarmos a aresta cimeira que nos conduziria ao cume e, desta vez, ainda um pouco mais sós, sem a presença da Santa, mas, em contrapartida, com um mar de nuvens por baixo dos nossos pés que reflectia um mágico e belo pôr-do-sol. Realmente um presente para a nossa perseverança… 
 

Encontro com a outra cordade na Via Martinez

As vistas da Face Sul do Naranjo

 

Curiosa protecção a fazer lembrar tempos passados

Já a iniciar o anfiteatro

 

Mar de nuvens abaixo dos nossos pés

 

Impressionante caminho na aresta para o cume

 

Juntos no cume do Picu Urrielo

 
 
Regressamos na penumbra mas com as almas a iluminar o caminho. O frio fazia-se sentir a cada minuto que passava, sentíamos a noite a penetrar nos nossos ossos, ninguém diria que estávamos nos finais de Julho.
 
Era altura de recolhermos ao nosso super aconchego e recuperarmos forças. A manhã voltava a ser húmida mas sem chuva e, embora com algumas nuvens, o sol lá ia espreitando.
 
Com este ambiente húmido e frio a face Norte estava fora dos planos restando a Este e Oeste e com mais 4 dias pela frente parecia um plano audaz. Mas, se os astros estivessem alinhados, certamente conseguiríamos.
 
Enquanto contornávamos a tremenda massa de rocha que é esta montanha em direcção à face Este, pensávamos se estaríamos a ser sensatos, é que as previsões no refúgio apontavam para mudança das condições climatéricas para pior no decorrer da tarde. O sol era simpático mas sabíamos que neste ponto da Europa o tempo é peculiar e consegue surpreender-nos num ápice.
 
Seguimos até avistar novamente a incrível face Este. O Alcino e o Emanuel aproximaram-se da famosa lage em forma de Y que dita o início da via Cepeda, uma clássica por excelência aberta em 1955 e que percorre as fragilidades naturais desta face, uma via muito inteligente e audaz para a época mas que ainda hoje continua a surpreender.
 

3º dia: a caminho da face Este

 

Apreciar a face Este e planear a escalada

 

Enquanto isso, eu e o Fred andávamos na azáfama de tentar descobrir o nosso percurso vertical para as próximas horas: “El Vuelo del Dragon”. Uma via de estilo moderno que percorre uma das partes mais verticais da parede, com zonas de aderência e onde o excelente calcário do Naranjo chega aqui às 5 estrelas, recomendada por muitos guias e que era descrita como uma pequena pérola, pequena pela sua dimensão mas grande em emoções, com um largo, considerado por muitos, um dos melhores do Naranjo. Esta foi uma das últimas vias abertas nesta face, obra dos criadores da famosa “Amistad” e “Capricho de Venus”. Tínhamos pela frente quatro largos que possibilitam no final sair por cima pela Via Nani ou rapelar até ao chão.

Preparados para iniciarmos a via, o Fred dá uma última vista de olhos aos antigos croquis e pronuncia uma frase que me abalaria: “O segundo largo é teu pois eu não vou escalar 30metros com um só seguro…”. Engoli em seco e decidi mostrar-lhe que não poderia ser, tinha que estar enganado, por norma analiso bem os cróquis. Segundo parece, deixei-me deslumbrar pelas belas descrições e desleixei-me na análise dos croquis: o segundo largo da via contava apenas com um ponto seguro num muro de trinta metros, numa escalada de aderência em ambiente hostil. Eu sabia que o anunciado V grau poderia ter um aspecto simpático nos croquis mas na realidade no Naranjo as coisas não são assim tão lineares. O Fred escala exemplarmente o primeiro largo que conta com 3 pontos fixos, algumas passagens periclitantes e um tecto que tinha que ser contornado onde teríamos que montar a primeira reunião. Após escalar este largo de segundo tive a certeza que não me poderia fiar nas cotações ou, pelo menos, eu ainda não tinha a destreza necessária para escalar nesta montanha. Estava na altura de eu enfrentar os meus demónios e evitar todos os vuelos possíveis.

Fred no primeiro largo da Vuelo del Dragon

 

Sérgio no melindroso 2º largo, na única protecção

 

Fred junto da fissura que não se protege

 

Felizes na reunião

 
Da reunião conseguia-se ver uma fissura generosa e eu não poderia crer que não seria possível proteger e tentei agarrar-me a esse pequeno e imaginário pormenor para me trazer algum conforto. Logo à saída da reunião encontramos uns movimentos de alguma precisão e coragem que eu decido ludibriar colocando 2 micros (no mesmo buraco), embora com a certeza que estes eram mais para o meu bem-estar psicológico do que físico. A partir daqui a escalada desenrola-se sobre uma stressante placa (à lá Peneda), sem qualquer hipótese de protecção, até alcançarmos um nicho já a meio da via onde se encontra o único ponto fixo. A partir daqui a escalada torna-se cada vez mais vertical e começam a aparecer escassamente umas pequenas regletes onde nos tentamos equilibrar. Sem perder tempo, chego à famosa fissura (francamente nítida no vídeo) que, embora generosa, era enganadora pois a sua forma em V não nos deixava proteger. Por variadas vezes tentei colocar protecção mas, por muito que eu quisesse e insistisse, ele não iria ficar. À medida que avançava a sensação de impotência ia aumentado e sufocando o pouco ar que ainda conseguia levar até aos pulmões. Por fim, já próximo das argolas mais belas que algum dia na vida vi, encontrei um pequeno e estranho buracão onde meti um pequeno amigo, mais uma vez psicológico, mas que me traria o conforto que é suposto o melhor amigo oferecer.
 
 

Sérgio a escalar o fantástico 3º largo da via

 
Depois de soltar um silencioso grito de alegria era a vez de segurar o Fred e, enquanto este escalava, eu ia tirando as medidas ao mar vertical, ou por vezes extrapumado, que se avizinhava. Depois desta escalada sentia-me repleto de boas sensações e capaz de lutar e dar novamente o meu melhor, estava determinado e nem mesmo o vento e o frio que começavam a ser cada vez mais intensos nos fariam desanimar!
 

Bem lá no fundo, o Fred inicia o 3º largo

 

Mais uma vez, o Fred neste fantástico largo

 

40 metros de rocha fantástica, movimentos atléticos e passes de desportiva, fazem deste um dos melhores largos que já escalei. Conta com apenas 7 parabolts e um pitão, mas aqui já temos possibilidade de meter um ou outro ponto. Se vamos com a ideia de escalar à vista e encadear à primeira não encontraremos grandes hipóteses de descansar. Bidedos, regletes generosas, passes aleatórios, aplats, passes de ombro e o crux, que era nada mais do que uma reglet invertida para a mão direita e uma reglete para mão esquerda, subir bem os pés em aderência, confiar e bloquear forte para alcançarmos uma presa generosa que levaria a melhor sobre mim. Ainda antes de chegarmos à reunião encontramos uma fissura que se escala em oposição, com os pés em nada, a fazer lembrar as belas escaldas da Peneda com ambiente e onde um voo nos leva a uns 10 metros mais a baixo. Aqui meto um friend já no limite e sigo para a reunião com uma fantástica sensação. Escalando já na gélida sombra, o Fred escala este longo largo e rapidamente se coloca a meu lado. O próximo largo apresenta uma escalada mais tranquila, com boa presa mas sempre vertical e atlético.

O crux do largo e o cansaço a fazer-se sentir

Em rappel, fugimos, com toda a pressa, da sombra até alcançarmos de novo o solo horizontal, que nos oferecia, num só, um belo sol de final de tarde e um belo posto para observar as andanças do Alcino e Emanuel.

A fazer amizades enquanto esperamos pelos companheiros Fauna local

 

Fauna local

Alcino na Cepeda

 
 

Emanuel na Cepeda

Alcino na Cepeda

Emanuel nos poucos momentos de sol da face Este

Típico largo da Cepeda; Alcino na chaminé

 
Era hora de regressar e de agradecer aos deuses por terem estado do nosso lado e tornado este um dia completo e repleto de boas sensações. 
 
 

O adeus à face Este

 

No Refúgio Vega de Urrielo

 
Já de noite a chuva regressaria assim como as nossas amigas ovelhas que, por variadas vezes, nos tentaram surripiar os mantimentos. Não sei se pela minha rápida investida ou estranho traje nocturno lá conseguimos afugentar estas simpáticas criaturas.
 

Simpáticas mas atrevidas

 

No dia seguinte aparecia a nossa montanha, bem molhada, por entre as baixas nuvens e, desta forma, nos retirava qualquer hipótese de tentar a nossa primeira experiência na Majestosa face Oeste.

Estava na hora de voltarmos ao carro e sucessivamente a casa, mas colocava-se a questão: “Regressaremos um dia para viver mais uma história de conto de fadas?” Só o destino o dirá, mas o que podemos afirmar é que estes 4 viveram felizes até a próxima aventura.

Uma amiga que nos acompanhou no caminho de regresso

 
Adeus e até à próxima
 
 
Fotografia da autoria de : Alcino Sousa, Emanuel Maio, Frederico Pinto e Sérgio Duarte
Edição dos vídeos por: Ana Duarte e Sérgio Duarte

Responses

  1. Tres Bien!

    Paulo Roxo

  2. Sem dúvida, mais que uma aventura… Até à próxima…

  3. Ganda pinta! Venham mais destas!!!
    Abreijos
    Daniela

  4. Ui… Vou para lá na terça, mas só para sacar a Directa em top (aquilo não tem argolas?!). PS: boa descrição, fiquei animado!🙂

    • A directa dos Matinez tem reuniões equipadas apenas, mais nenhum ponto fixo.
      Também vais ter muita gente nessa via, a subir e a descer por isso cuidado…
      boa escalada!


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