Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Fevereiro 22, 2012

Escalada da Face Norte do Almanzor, Gredos

Um regresso muito esperado: à neve ou a Gredos?

Num inverno extremamente seco e frio, a chuva que teima em não cair, escasseiam-se os feriados, mais e mais portagens, combustíveis fora de controlo, a família exige cada vez a nossa presença, o nosso coração sente cada vez mais a sua ausência e a nossa alma exige espaço aberto e momentos de incerteza.

São 22H e o empedrado que nos conduz até à lagoa recebe as nossas primeiras pisadas na recente capa de neve fofa. É um momento em que caminhar pela escuridão, a altas horas da noite, com uns simpáticos -5º, lembram-nos com prazer o objectivo desta nossa viagem.

O objectivo será o mesmo, a audácia é um pouco diferente, mas a rebeldia, essa já quase não existe, e se eu pensar bem passaram 8 anos desde a minha primeira (visita) ao Almanzor.

No passado:

Sem nenhuma experiência em escalada e muito menos em neve, eu e Paulo (Ramos) deixamo-nos levar pela vontade, vontade de seguirmos, ainda que tendo que trilhar o caminho pela via normal quando nos enterrávamos 50cm a cada passo, e quando arrastávamos pela primeira vez uns estranhos instrumentos nas botas e uns enormes piolets de travessia que ainda à pouco estavam na estante de uma loja prontos a fazerem uma curta amizade com dois estranhos.

Uma subida extremamente penosa e, ao contrário dos dias de hoje, neve era coisa que não faltava. Mais um passo e mais uma vez me via puxado pelos 50cm de neve mole. Valia-nos a boa forma física e a vontade, vontade de pela primeira vez experimentarmos sermos alpinista, ou tentar! Subirmos por uma pendente acompanhados pela ideia de que, 30 dias antes, um jovem Português com muito mais experiência do que nós tinha perdido a vida numa avalanche neste mesmo local… Depois de uma árdua luta para superar a grande inclinação da Portilha del Crapon eis que, chegados ao final da pendente, o estreito vértice e acentuado desfiladeiro para o outro lado retirava-me qualquer esperança de alcançar o cume, ainda que a escassos 25m dele. Neste dia aprendia uma grande lição: “o importante é ficar bem para tentar de novo; a montanha, essa, está sempre lá”!

O presente:

Depois de descansarmos numa tenda gelada durante 3 horas e sem ser necessário o relógio despertar, eram 5h quando o pequeno-almoço se anunciou, quase tão reconfortante quanto apreciar os primeiros raios de sol, que momentos depois espreitavam por traz de uma muralha de rocha e neve. Presenciar aquele momento faz valer a pena todo o esforço, todo o frio, cansaço, toda a saudade… Este momento cai na minha alma animando-me para enfrentar aquela curta mas fria face Norte que nos proponhamos explorar.

A caminho, pela escuridão da noite e o frio do inverno

A placa nos Barrerones

Hotel 5 estrelas ou, direi, um mar de estrelas!

Fantástico nascer do dia

Os primeiros raios de sol

Aqui o nascer do dia tem outro encanto!

Emanuel Maio

Aproximação ao Almanzor

Nuno próximo do inicio da via

A caminho da face norte

Éramos os primeiros naquela manhã e ao fundo via-se o refúgio com as primeiras movimentações. A cordada do Alcino e Emanuel superavam o primeiro ressalto de rocha e gelo que inicia a via, enquanto eu e o Nuno permanecíamos impacientes e gelados fintando as constantes cascatas de neve solta que nos fustigavam.
(Alcino a ser fustigado por esta corrente de neve, um excelente momento registado nesta fotografia)

Procurem o Alcino por de baixo da cascata de neve!

Nuno no início da via e num dos crux da via!

Uma pendente de neve na Face Norte do Almanzor

Eu num belo largo de terreno misto

Depois de este interessante ressalto de rocha com saída em neve, o Nuno segue por um pequeno corredor de neve até onde monta a primeira e precária reunião. Logo de seguida, e após um longo período de ausência de neve, sendo que a minha última incursão foi na Estrela Nocturna na Serra da Estrela (em Março de 2010), escalo entusiasmado por um canal de neve estreito num terreno misto com um e outro passo de oposição até encontrar o Emanuel.

Alcino escala em rocha na ausência da cascata

Enquanto chegávamos, eles saiam, e visto que não existia a tradicional e clássica cascata de gelo, o recurso era uma escalada em rocha com crapons e piolets completamente ausente de neve, cotado nos croquis como IV+, onde o Nuno mostrava que tem ido aos treinos e que o melhor mesmo era fugirmos a uma terceira cordada que nos mordia nos calcanhares.

Nuno inicia um excelente largo de terreno misto

Depois desta secção de rocha entravamos numa pendente menos prenunciada de neve que fechava num estreito canal de rocha peculiarmente coberto por uma capa de neve e gelo extremamente fina, tão fina que não fixava as pedras que aqui se encontravam. Montada a reunião no início deste canal, o Nuno percorre esta secção de uma forma tão desembaraçada quanto surpreendente foi ver o Emanuel e o Alcino escalarem este tramo em “ensamble”. Depois de um curto largo era altura de recebermos de braços abertos o SOL. Agora sei o porque na maioria das montanhas a Face Norte ser a que mais respeito implica: permanecer uma manhã com constantes quedas de neve, enregelados e com as mãos e pés completamente insensíveis.

Alcino nos últimos metros

Nuno numa paisagem soberba na trepada final.

Vários anos depois de ter olhado pela primeira vez para o cume desta montanha era altura de pisar o cume. A recompensa era um dia de sol soberbo e um percurso de quase 8 anos de aprendizagem e de momentos fantásticos. A recompensa o cume?! Há melhor recompensa do que o percurso até ele?!

Foto do cume. Finalmente o sol!

Depois de absorvermos uns quantos minutos de sol, era tempo de descermos pela via normal, via esta que anos antes me tinha levado toda a rebeldia e desta vez não era mais do que uma escalada.

Rapidamente descemos até à tenda que aguardava por nós na companhia das nossas mochilas e algumas horas depois estávamos de novo na plataforma, com as temperaturas a caírem abruptamente.

Na descida, a caminho da “portilla del crampon”

Cascatas num inverno muito seco!

Naquele ano de 2004 depois de descer daquele empinado corredor e de me encontrar confortavelmente sentado no muro do Elola, as questões sucediam-se e eu tentava arranjar respostas. Hoje percebo que não temos que ter sempre resposta, podendo simplesmente viver as experiências que nos proporcionam prazer.

Refugio Elola, Gredos

A caminho, sobre a lagoa grande congelada!

Fotos: Alcino Sousa, Emanuel Maio, Nuno Teixeira e Sérgio Duarte

Responses

  1. Muito bom…
    Venha a próxima …

  2. “Lá encima não há nada, apenas a historia que escreveste com a tua vida para lá chegar” – Alfonso Vizán

    Realmente, o cimo não importa mesmo nada, quando comparado com as vivências.

    Boa actividade e abraço.


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