Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Abril 9, 2012

Escalada Clássica no Parque Nacional da Peneda Gerês, Meadinha

Um dia de escalada entre amigos na Meadinha.

(É importante explicar que não seguimos nenhuma ordem cronológica nos post’s, apenas a disponibilidade e a imaginação necessárias, ainda assim não temos desculpa, este estava na forja desde Setembro passado…)

Chegar à Peneda e depararmo-nos com um ambiente quase de encontro, uma atmosfera amistosa que agradavelmente se manifesta em cumprimentos, abraços e breves conversas torna tudo ainda mais interessante. Era quase um ajuntamento de amigos que se avizinhava animado e quente e a temperatura ajudava a tal.

Hotel da Peneda com a Meadinha

Os planos traçados pelo caminho desvaneciam-se ao vermos que existiam outros planos a chocarem com os nossos. Assim o meu plano A: tentar o “S” (para mim pela primeira vez) ficava para uns espanhóis. Plano B: a “Auto Pista” ficava para a cordada do Marco, e esta e aquela e logo se vê… felizmente na Meadinha vias não faltam!

Para quem tinha só umas escassas horas, o importante era fazer render o tempo e, assim, o Emanuel inicia-se na “Come Cocos”. Ainda que por uns anos afastado deste mar de granito, este é sem dúvida um espaço onde o Emanuel se sente em casa e onde é feliz quando escala, logo, restava-nos seguir as suas pisadas. Em ambos os lados seguia-se uma conquista vertical quase renhida! Esta era apenas a via para ambientar e a alternativa criava-me alguma pressão, aquele nervoso miudinho que vai crescendo quando as desculpas escasseiam e nós sabemos que não podemos evitar mais o destino.

Emanuel na “Come cocos”

Desde que visitei pela primeira vez a Peneda, ainda não me imaginava a penar nos ínfimos cristais, já eu me deixava deslumbrar pelo grande tecto que a Chus Lago e os Josés abriram nos finais dos anos 80 e acabariam por apelidar de “Merlin”: um espaço de magia tão belo e inspirador quanto singular. Ano após ano eu arranjava as minhas desculpas: não tenho experiência suficiente; falta-me confiança; necessito de mais continuidade; está molhada; etc. etc. E, assim vivia eu na esperança de que um dia o destino decidisse por mim, e por vezes o destino prega-nos partidas!

O característico tecto da “Merlin” e ainda um pouco do “Chapéu”

A sombra que este grande e majestoso tecto oferece foi mais do que a justificação que confirmava que tinha chegado o dia e, se eu hesitei, o Alcino não. Rapidamente se lançou numa linha ao lado esquerdo da “Escaleras al Cielo” (não sei o nome), recentemente limpa e que se escala com tranquilidade; uma boa opção para quem foge a surpresas e pretende graus mais simpáticos. Ao Emanuel coube o fantástico segundo largo das Escaleras, nada de novo para ele.

Alcino abrir o, possivelmente, primeiro e original largo da “Escaleras”

E ali estava eu plantado à sombra do gigante, tentando encontrar a devida tranquilidade para enfrentar esta via que pelo aspecto do mar de musgo não deveria ter tido muitas visitas nos últimos tempos, juntando ao facto de este ter sido um verão bastante húmido, o que fazia com que o seu aspecto fosse de um verde vivo ao contrário do cinza granítico que eu tanto desejava.

Sérgio segura o Emanuel que se delicia no segundo da “Escaleras”

Não sei bem porquê mas inicio a via com o coração a tentar saltar pela boca fora. Os primeiros movimentos são de precisão mas de grande beleza, sentia a necessidade de me focar mesmo sendo arrebatado pelas sucessivas passagens do helicóptero que para o lado oposto do vale transportava água para um lamentável incêndio. A via é (hoje) dividida a meio pela reunião das “Chaves do Ceo” e eu decido parar para ganhar algum folego. Agora sim começava a sentir aquela espécie de transe que se apodera de nós quando a escalada é perfeita.

Lamentável cenário e o tremendo trabalho levado a cabo pelo helicóptero

O que minutos antes eram desculpas e medos naquele momento eram as regras do jogo que eu estava disposto a aceitar. A via escala-se assegurado com as mãos na fissura que divide o tecto da parede lisa onde cuidadosamente se colocam as pontas dos pés-de-gato e, há medida que percorro a fissura, esta ganha lentamente alguma dimensão, o mesmo acontecendo com os meus antebraços, e como a parede faz um pequeno arco, já só para lá de meio começamos a ver o final onde as coisas se tornam mais complicadas. A parede torna-se ainda mais vertical e o aparecimento de um ressalto negativo na parede por baixo dos meus pés não ajuda em nada. Após este ressalto e acabado de colocar um friend vejo a uns escassos metros uma gota como que à minha espera (sinal de um verão húmido). Neste momento, por muito que tente descansar alternadamente os braços, já pouco se consegue ganhar e, quando me apercebo que a reunião esta próxima, decido então avançar até ao próximo friend. Ao descansar um dos braços sinto que aquela gota me pode atraiçoar e num ápice sem qualquer hipótese de temer o vazio abandono a minha posição e começo a cair, cair, até ao primeiro esticão e depois o segundo até parar uns consideráveis metros lá no fundo. Só aqui me apercebo do sucedido e caiem por terra qualquer hipóteses de escalar a Merlin à vista… Mas a experiência era sem dúvida positiva; a queda essa foi a maior que tive em toda a minha vida de escalada, nem mesmo na desportiva me dei ao luxo de uma queda de 8 metros ajudados por 2 friends que saltaram.

Sérgio no início da fissura da Merlin

Muito musgo à mistura para apimentar a coisa!!

Belas paisagens nos oferece a Peneda!

Musgo e os braços a começarem a inchar!

Pedi ao Emanuel e ao Alcino paciência, mas estava a voltar a mim, eram muitas as emoções a assimilar e eu tinha mesmo que saborear tudo aquilo.

Já pendurado depois da queda

Emanuel a escalar de segundo a Merlin

Movimentos iniciais da via Merlin

Alcino retirar o material da via

A ideia era terminar saindo pela “Directa a los Techos”, mas o tempo perdido nestas andanças roubaram-nos qualquer hipóteses de continuar. Terminamos a Merlin e por fim rapelamos e retemperamos forças sempre de olhos pregados nas enumeras cordadas que naquele quente dia de Setembro se tinham aventurado.

Para mim foi sem dúvida um dia perfeito, ainda que o plano de escalar a via à vista não se tenha concretizado. A experiência e os momentos que ali passei fazem da escalada uma actividade tão singular como espectacular, ainda assim muito difícil de colocar em palavras o que sentimos nestes momentos únicos!

Um pouco do que a Meadinha tem para nos oferecer!

Fotografias de: Alcino Sousa, Emanuel Maio e Sérgio Duarte

Mais informação sobre a Meadinha em:


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