Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Agosto 22, 2012

Peña Ubiña

Alpinismo em Espanha na Cordilheira Cantábrica

Diz o ditado que recordar é viver mas, na realidade ao recordar esta passagem, tudo o que sinto é só e apenas a recordação e, para ser sincero, não me apetece viver certos momentos daquele dia de escalada! Terá sido esta a razão pela qual demorou tanto a escrever este post? Não. Foi mesmo falta de tempo (ou então isto é uma grande desculpa)!

Depois de anos a tentarem vender-me o sonho americano (perto, curta aproximação, imensidão, compromisso e 24h depois estamos de volta a casa) tudo era, sem dúvidas, razões de sobra para conhecer a Pena Ubiña. Mas, só desta vez me decidi alistar…

Depois de um inverno vergonhoso eis que surge um fevereiro realmente invernal, uma semana inteira a nevar impossibilita-nos de lançar o ataque e, passados 15 dias, ali estamos nós na Residencial “Paragem de Autocarro” com 1ºC positivo às 00.00 horas!!!

Residência Paragem de Autocarro

O nascer do dia revelava-nos uma paisagem realmente bela, com as cores do céu a rasgarem a escuridão por trás da nossa montanha. Enquanto eu registava este momento, o Alcino e Emanuel planeavam a estratégia e o hipotético traçado.

Alvorada bem cedo, enquanto a aldeia ainda dorme.

O nascer do dia ou o terminar da noite?

Aproximação à parede Noroeste

A cara noroeste oferece na realidade uma imponência e verticalidade tremendas, algo que se sente à medida que nos aproximamos do paredão por onde se inicia a via Brojos-Sio (AD).

Últimas rampas de neve antes do inicio da vida Brojos-Sio, Pena Ubiña

Segundo os croquis, o passo mais duro seria mesmo no início, coisa que o Emanuel pode comprovar depois da dura batalha travada contra uma fissura e falta de possibilidades para fixar as pontas dos piolets e crampons, mas a persistência e imaginação levam avante e passados alguns minutos eis que ele desaparece num estreito corredor.

Emanuel inicia a batalha

Movimentos inicias de escalada mista

Duros movimentos e a necessidade de ser criativo!

Quando me junto aos meus companheiros de cordada percebo que a única reunião digna deste nome era o conjunto de nós os 3 e os dois stoppers, caricatamente entalados a desfazerem a rocha quando me preparo para os retirar. Aqui, começo a aperceber-me da precariedade que a rocha oferece.

Será isto a primeira reunião?

Escalada em largos metros sem grandes hipóteses de protecção

Em ensemble, com o Emanuel a passar um ressalto de rocha podre, é claro!

Avançamos por mais um largo de neve precária (devido às altas temperaturas) até encontrarmos um maravilhoso buril que me oferece alguma segurança psicológica. Um só e antigo ponto e, mesmo assim, esta é a mais sólida reunião de toda a via. A partir daqui é para seguir em ensemble por um largo de quase 40 metros que o Alcino resolve com mestria, mas com apenas 2 pontos de segurança muito frágeis. A somar a falta de locais sólidos para proteção temos uma temperatura caricata: 9ºC à sombra.

Alcino imagina uma reunião!

Alcino avalia o próximo largo de escalada

Para mim, torna-se uma verdadeira batalha psicológica, a neve cada vez mais empapada, estilhaços de neve e rocha a assobiar como balas na nossa direção… todos estes fatores começam a mexer com a minha confiança.

Alcançamos uma plataforma bastante ampla e eis que apresento a intenção de abandonar a via. Neste momento sinto-me completamente exposto e a minha intenção de poder abrir qualquer largo deste traçado estão postos de lado. Depois de analisarmos a situação chegamos à feliz decisão de abandonar esta via que se encontra mais exposta aos sol e seguir uma travessia à direita de forma a entramos na via Elixir de la Suerte (AD) um pouco mais resguardada.

A partir daqui continuamos com uma escalada de reunião em reunião onde abro os meus primeiros largos e na realidade sinto na pele o que é tentar montar uma reunião nesta montanha. O penúltimo largo é aberto por mim e acaba por ser o mais interessante de toda a via com uma cascata de gelo com uns escassos metros a fazer as delícias. Ainda tenho tempo de presenciar um bloco de gelo que explode a uns 3 metros de mim e comprova que o melhor mesmo é continuarmos ligeiros.

Sérgio prepara-se para abrir o penúltimo largo

Sérgio nos metros finais da via

Seguimos até ao cume por uma estética aresta que nos presenteia com umas vista soberba sobre as montanhas Asturianas!

Aresta que nos leva até ao cume

No cume da Pena Ubiña, 2417 metros de altitude

O regresso por uma outra face da montanha

Para mim, era o fechar da época de gelo que se torna de ano para ano mais e mais curta. Na realidade nunca me tinha sentido tão precário em qualquer outra situação na montanha e isso fez-me repensar tudo o que tinha vivido até àquele momento.

Talvez tenha sido eu a razão pelo abandona desta vida, mas uma cordada é formada por duas pontas que devem seguir o mesmo sentido…

Alcino, Emanuel e Sérgio

Cróquis do itinerário escalado

Começamos pela via Brojos-Sio cotada como AD (algo difícil), depois de uma grande travessia à direita entramos na Elixir de la Suerte, também cotada como AD (mesmo escalada desde o inicio não se encontra nenhum passo tão duro como o arranque da Brojos-Sios). A dimensão de qualquer uma destas vias é de 550m (pelos croquis).


Responses

  1. Numa aventura desta natureza o importante é a união do grupo e o concenso, valeu a pena!!! Venha a próxima época …

  2. Grande escalada!
    Boas fotos também.
    Gostei do dedo indicador no ‘label’ de topo, a mostrar o futuro!
    Abr.
    X

  3. Parabéns pessoal, excelente atividade!
    Eu sou tb amante de Alpinismo e Escalada Clássica mas tenho tido dificuldade em localizar malta para este tipo de aventuras.
    Sou do Porto e, nos clubes que visitei, somente me oferecem ou a marcha ou a escalada desportiva… Como já tenho menos jeito para acrobacia, a escalada desportiva está fora do meu “menu” e as marchas, deixam-me sabor a pouco!
    Fui praticante sério de Montanhismo há 30 anos, fiz muitas ascensões nos Alpes e conhecia os clubes mais ativos da época.
    Gostava de voltar a encontrar companheiros de cordada para atividades em estilo Alpino de escalada em rocha, gelo, travessia de glaciares e ascensões de média/alta montanha (até aos 6000m).

    Obrigado.

    • Olá, Luís
      Desde já o nosso obrigado pelas palavras.
      Quando ele quiser, pode-se juntar a nós para nos conhecermos e quem sabe fazermos actividades juntos. Até pode ser um dia de escalada desportiva aqui perto ou de clássica e depois quem sabe se tivermos os mesmos objectivos poderemos fazer outras actividades juntos.
      Pode ficar com o meu email e quando estiver disponível diga-nos algo e podemos combinar aí uma actividade engraçada.
      anaisamonteiro@gmail.com
      Ficamos à espera

      • Obrigado, entrarei em contacto.

        LM


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