Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Dezembro 12, 2012

Trail Running ou Corrida de Montanha: Ultra Trail Serra D’Arga e Mini Trail Amigos da Montanha

As minhas primeiras experiências nas meias maratonas de montanha!

Esta é uma partilha pessoal de toda uma nova experiência  um pouco diferente das que normalmente relatamos neste espaço. Desta vez não se trata de escalada, alpinismo, montanhismo ou até mesmo uma viagem. No entanto, o elemento comum continua a ser a MONTANHA, os espaços naturais, o contacto com a natureza e a vontade de nos superarmos!

Há 7 anos, quando Ana e eu nos aventuramos pelos Alpes, para além de uma nova dimensão da escalada e alpinismo, também nos foi revelado um desporto para nós totalmente desconhecido. Durante duas horas, muitas foram as personagens que desfilaram em passo de corrida à nossa frente, alguns com aspecto de atletas, outros nem por isso, mas todos num ambiente de festa. Assim tomávamos o nosso primeiro contacto com as corridas de montanha, desta feita a prova Rainha: o Ultra Trail Mont Blanc.

Montanhas nos Alpes: um terreno de excelência para a prática de desportos de montanha.

Montanhas nos Alpes: um terreno de excelência para a prática de desportos de montanha.

 

Vistas de Chamonix e os inconfundíveis glaciares do Monte Branco (2005)

Vistas de Chamonix e os inconfundíveis glaciares do Monte Branco (2005)

 

Ultra Trail do Monte Branco: prova rainha da trail de montanha, 2005 (166 km +9,400m de desnível; vencedor JAQUEROD Christophe com 21h 11min e 7 seg)

Ultra Trail do Monte Branco: prova rainha da trail de montanha, 2005 (166 km +9,400m de desnível; vencedor JAQUEROD Christophe com 21h 11min e 7 seg)

 

Ultra trail Mont Blanc, 2005 (nesta edição OLMO Marco chegaria em 3º lugar com 21h 49 min e 57 seg)

Ultra trail Mont Blanc, 2005 (nesta edição OLMO Marco chegaria em 3º lugar com 21h 49 min e 57 seg)

 

UTMB 2005: são várias as personagens

UTMB 2005: são várias as personagens

 

Até os bobos vão para animar a malta!

Até os bobos vão para animar a malta!

 

E o fiel companheiro...

E o fiel companheiro…

 

Mas tudo começou com um e-mail, há dois anos, em que o Vítor Martins me alicia com uma tal prova de 22km na Serra D’Arga, organizada por um tal Carlos Sá. Eu fiquei curioso, mas na realidade estava também em divida para com o Vítor: ele tinha-me acompanhado numa outra história na Serra da Estrela (um outro post que está na forja)!

Tínhamos dois meses para nos preparar, ou pelo menos tentar minimizar o sofrimento. Eu, o Vítor, o Emanuel e o Samuel partimos pela grande rampa que inicia a prova e que é talvez o seu maior obstáculo: mais de 3km a subir e, se não soubermos gerir o esforço, mais tarde pagamos a factura. A prova acabaria por correr sem sobressaltos mas na famosa saída do rio, quase a um 1 km da meta, eu seria atacado por um cão raivoso que se atirou sem piedade aos gémeos, cão de seu nome “cãibras” e que tinha sido atiçado pela falta experiência, mas principalmente, falta de preparação. Ainda assim, em mais de 250 atletas, terminar no 49º lugar foi um alento para a inscrição do ano seguinte.

A prova de 2012 seria a minha segunda participação na distância de 22km em qualquer tipo de terreno, mas desta vez estava disposto a preparar-me um pouco melhor. No entanto, uma queda ao abrir uma via em solitário na Serra da Estrela levaria a que o treino se resumisse a dois meses! Ainda assim tivemos a oportunidade de fazer alguns treinos nos montes em Valongo, em jeito de recuperação activa, embora com algumas reservas. Ia surgindo um espírito muito positivo no seio do grupo que se preparava para enfrentar a segunda edição da Trail Serra D’Arga e isso fez toda a diferença no decorrer dos treinos mas principalmente no dia da prova.

Treino em Valongo, um espaço interessante tão perto de casa!

Treino em Valongo, um espaço interessante tão perto de casa!

 

Vistas da Serra de Pias em Valongo

Vistas da Serra de Pias em Valongo

 

O espírito antes da partida, 2012

O espírito antes da partida, 2012

 

Eu não gosto de competições, mas gosto de me superar e era esse o meu objectivo; tinha a vantagem de saber o que iria enfrentar e, assim, planeei a minha prova.

No dia da prova bastaram os primeiros km’s para eu sentir os efeitos de ainda não estar 100% recuperado: 8km decorridos com fortes dores na perna. Tentava jogar na defensiva e não apertar ao máximo e valia-me das descidas, um terreno que joga a meu favor. Entretanto começava uma dor no peito que me acompanharia por mais de 3 km e quase me levaria a desistir, tal só não aconteceu porque pensei que ao desistir teria que continuar pelo meu pé até ao próximo abastecimento e, continuar por continuar, que fosse a correr!!! Passados quase 16km a correr praticamente só, sinto que o corpo começou a estabilizar e é por esta altura que um atleta passa por mim e me faz sentir que ainda estou em prova. Um pouco mais à frente um dos voluntários informa-me da minha posição e, isso, associado ao terminar das grandes subidas, fazem regressar o alento, e assim penso se não estaria na hora de atacar! Vejo ao longe um atleta e foco-me nesse objectivo, serve-me de motivação e sigo voando por entre os blocos de granito. Talvez pelo facto de estar habituado a trilhos de montanha ou porque arrisco um pouco mais, o certo é que ao entrar no último abastecimento consigo alcançar esse atleta com quem troco umas palavras em inglês (uma prova cada vez mais internacional). A partir daqui, tento gerir a posição e o esforço na esperança de não querer ser atacado pelo “cão” do ano passado! O trilho final, junto ao rio Âncora, é sem dúvida um hino à natureza. Faço-o com alguma precaução e, quando sinto que o cansaço se começa a apoderar, eis que tudo termina e sou recebido na recta da meta por simpáticos populares.

Sozinho a entrar no Rio Âncora

Sozinho a entrar no Rio Âncora

 

Samuel na trepada final nas margens do Âncora, uma autêntica escalada na lama

Samuel na trepada final nas margens do Âncora, uma autêntica escalada na lama

 

Poucos minutos depois da chegada, e graças à tecnologia, surgem os resultados e sou surpreendido com um 7º lugar do meu escalão (menos de 40 anos) e 17º da geral, isto tudo em mais de 450 inscritos. Resta-me esperar pelos amigos que fazem parte da Team DUAS FACES para juntos partilharmos os momentos de sofrimento e glória!

Team DUAS FACES 2012

Team DUAS FACES 2012

 

Pouco mais de um mês e meio mais tarde já me encontro a percorrer os 25km da Mini Trail Amigos da Montanha em Barcelos, uma prova com menos desnível mas mais longa. Durante os primeiros 14km o sofrimento apodera-se novamente de mim levando-me a questionar o porquê de me submeter a estes sentimentos, a esta angústia, se não estaria na altura de desistir…

Durante a Prova "Amigos da Montanha" (foto facebook Amigos da Montanha)

Durante a Prova “Amigos da Montanha” (foto facebook Amigos da Montanha)

O facto de haver mais atletas inscritos, talvez mais atletas habituados à estrada, faz com que o ritmo imposto seja bem mais rápido e isto desgasta-me profundamente. As subidas, onde eu também tinha alguma vantagem, eram escassas e nas zonas planas era vê-los a passar por mim a todo gás. Valia-me a chuva e o frio, as condições ideais para correr, ao contrário do sol e calor que encontramos na Serra D’Arga. Logo após a linha da meta é-me comunicado que tenho a 27º posição da geral e 17º do meu escalão num total de 620 atletas a terminarem a prova. Não deixo de ficar surpreendido e, mais uma vez, volto a esquecer tudo o que passei e a pensar que as paisagens de montanha e que todo o ambiente, principalmente a entreajuda e companheirismo, são as principais razões que me levam a correr em troca de “nada”!

A família também acompanha!

A família também acompanha!

 

No decorrer desta prova tive o privilégio de percorrer alguns km na companhia do grande Armando Teixeira que, acompanhado por outro atleta, passaram por mim em ritmo de treino e a conversar coisas do dia-a-dia. Não deixa de ser impressionante a performance destes nossos atletas, mas a humildade e simpatia seriam as principais características a destacar.

O trail running segue um crescimento sem igual se comparado com qualquer outro desporto. Se tivermos em conta o espirito de sacrifício que se impõe, não deixa de ser curioso! Mas seja por moda, pela facilidade com que se treina a corrida ou outro qualquer factor, eu concordo com as palavras de Denis Urubko quando diz que “é sinal que há muita gente que prefere não ficar sentada em frente à televisão”!

 


Responses

  1. Muito bom… Agora é estabelecer novos objectivos….


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