Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Janeiro 30, 2013

Escalada Clássica na Serra da Estrela

Nova via de autoprotecção, sector Lagoa Comprida

À medida que vamos escalando e que os anos vão passando é quase inevitável sentirmos um apelo por criarmos as nossas vias, por darmos vida a uma ideia, por imaginarmos um caminho, seja numa montanha, numa parede ou num bloco. Mas, na essência desta vontade, está o aventurarmo-nos no completo desconhecido e sermos os primeiros a passar por ali!

Eu sentia esse apelo e, embora já tivesse pintalgado algumas paredes, queria mais, queria descobrir um local e passar dias a imaginar qual a melhor solução para chegar ao cimo…

Esta história remonta ao verão de 2010 quando fui com o Alcino fazer clássica para o Cântaro. A caminho deparamo-nos com um cenário dantesco, a serra encontrava-se pintada de cinzento longe de todas aquelas cores majestosas. Ao regressarmos deste fantástico dia de escalada e ao cruzar a zona da Lagoa Comprida apercebi-me que o fogo deixara ao descoberto hipotéticos caminhos que só eu queria ver…

Em Fevereiro do ano seguinte, depois de uma tentativa frustrada de escalar em gelo, os 12ºC graus positivos obrigavam-nos a regressar mais cedo (o que para mim nem foi mau de todo). Assim surge então o passeio de reconhecimento e as primeiras fotos e, assim, fico com a certeza de que tínhamos parede, certamente uma certeza só minha… Nos tempos que se seguiram vi e revi as fotografias, imaginei e fantasiei traçados que poderiam nunca ser reais pois não era fácil arranjar companheiro de cordada para estas paredes, e eu entendo porquê!

Só a 28 de Agosto desse mesmo ano conseguiria convencer o Miguel Leite e o Vitor Martins que, corajosamente, confiaram em mim e me acompanharam na abertura daquela que seria a primeira via do sector da Lagoa Comprida. Convencer não será bem o termo, talvez enganar, o que na realidade se confirmou, pois eles fizeram tudo menos escalar.

Começamos a escalar quase ao final da manhã, depois de uma aproximação realmente dura. O local em si não é distante mas o acesso estava longe de ser fácil e prevê-se que com o crescer da vegetação se tornasse ainda mais complicado. Felizmente, agora é possível aceder mais facilmente se formos pelo cimo da parede e, em dois rápeis, estamos na sua base.

legenda 1

Depois de perdermos a máquina fotográfica, resta-nos o telemóvel para registar o momento.

legenda 2

O penoso caminho de terra solta, paus secos e muita rocha.

Sem garantias; a única certeza que eu tinha é que não estava nos meus planos utilizar pernos fixos. Esta zona está repleta de fissuras e só tínhamos que aproveitar as fraquezas que a parede nos oferecia e, logicamente, escolhemos a fissura mais evidente, de aspecto mais tranquilo mas que, ainda assim, exigiu ser iniciada em artificial. Uma fissura larga para a qual não tinha friend e um pequeno extraprumo dificultaram a tarefa e obrigaram-me a ser criativo. Para piorar, uma quantidade de pedras entaladas na fissura tornavam o processo mais precário e até perigoso. Escalados uns 5 metros, a parede tomba, o que torna tudo mais fácil. Sigo sempre a fissura e, no meio do musgo e das pedras soltas, eis que vou sacando as presas ideais para que a via se mantenha num grau simpático. Aparece um tecto que me obriga colocar um piton de rocha e a contorná-lo pela esquerda e, depois de uns movimentos em equilíbrio, entro numa trepada um pouco mais fácil que me vai colocar por cima do referido tecto e, a partir daqui, sigo a escalar por um sistema de pequenos blocos e fissuras instáveis, mesmo muito instáveis, que me levam até ao final da parede. Só aqui decido içar a máquina para instalar a reunião.

legenda 3

Sérgio tenta desesperadamente escalar em livre e proteger…

legenda 4

Já na parte final do extraprumo: “Será que esta pedra aguenta comigo?!”

legenda 5

Parte final da fissura, antes do tecto.

legenda 6

A colocar o piton para mais facilmente se proteger.

O Vitor Martins escala de segundo e em livre, retira todo o material (excepto o piton do tecto) e ajuda também na limpeza dos blocos instáveis enquanto o Miguel, em baixo, vai fotografando.

legenda 7

Vitor na trepada final e todo ambiente da via

legenda 8

Enquanto o Sérgio limpa a via e o Miguel espera e desespera

Neste dia de verão eis que surge, finalmente, a primeira via deste sector: “Parto Bravo 6a+?”, uma via com perto de 35 metros. Embora de grau baixo, acaba por ser bastante completa: fissura larga, fissura mais estreita, extraprumo, uma zona mais tombada, um tecto e umas trepadas mais fáceis no final, tudo isto por um granito laranja, nem sempre muito sólido, embora fácil de proteger, mas com presa, e que requer alguma perícia na manobra de cordas (convém alongar bem os pontos do tecto), tudo isto com um ambiente único!

escalada_classica_19

Mais uma vez, o caminho desesperante.

legenda 10

A nossa parede ao fundo e outras hipóteses à espreita.

Lagoa Comprida – sector com muita parede mas, nem toda é tão sólida quanto parece; sem grande dimensão, embora quando escalamos se sinta o isolamento e o facto de nos encontrarmos já a alguns metros; existem várias possibilidades, sempre em fissuras e diedros, facto que exclui a necessidade de pernos. Nunca será uma zona muito popular devido à proximidade do majestoso Cântaro em apenas 20 minutos de carro!

Mesmo depois desta via e de confirmarmos que existiriam outras hipóteses, a tarefa de angariar companhia continuava a não ser fácil. Só em Novembro de 2011 é que eu e o Fred (Frederico Pinto) nos dirigimos à Serra, embora o regresso parecesse amaldiçoado.

legenda 11

Frederico e Sérgio a serem apanhados pelo mau tempo.

Desta vez decidimos fazer a aproximação pelo topo da falésia, tarefa que se adivinhou bem mais fácil, e instalamos um rápel de acesso às vias. Mas, o tempo, que já não estava famoso, surpreendeu-nos e obrigou-nos a retirar carregados de frustração!

No entanto, nem tudo estava perdido: mesmo debaixo de condições invernais, ao voltarmos para o carro, decido que a deslocação não seria em vão e vou literalmente saciar a minha curiosidade e abrir uma pequena caixa de pandora…

Parto Bravo (6a+), 35mt
Sérgio Duarte, Vitor Martins e Miguel Leite
(escalar com atenção; embora já muito mais limpa, esta via pode apresentar algumas pedras soltas na parte final)
28 de Agosto de 2010
Jogo de Frieds (nº 6 pode dar jeito no início)
Cordas duplas, Cintas largas

Parto Bravo

(Mais vias e mais informação detalhada para breve)

 


Responses

  1. Bueno!

     

    Quoting Chinelo de Meter o Dedo : > > > > Chinelo de Meter o Dedo posted: “Nova via de autoprotecção, sector > Lagoa Comprida À medida que vamos escalando e que os anos vão > passando é quase inevitável sentirmos um apelo por criarmos as > nossas vias, por darmos vida a uma ideia, por imaginarmos um > caminho, seja numa montanha, numa ” > > > > > >

  2. Foi tudo bravo! Aproximação por mato bravo, sol bravo, trabalho bravo, e daí resultou um bravo parto de uma via.🙂

  3. […] início da tarde, o Alcino e o Tiago começam a abrir uma fissura ao lado da via “Parto Bravo”. Esta fissura começa novamente com um pequeno extraprumo que estava bem mais sujo e com mais […]

  4. […] início da tarde, o Alcino e o Tiago começam a abrir uma fissura ao lado da via “Parto Bravo”. Esta fissura começa novamente com um pequeno extraprumo que estava bem mais sujo e com mais […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: