Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Janeiro 30, 2013

Escalada Clássica na Serra da Estrela

Nova via de autoprotecção, sector Lagoa Comprida

À medida que vamos escalando e que os anos vão passando é quase inevitável sentirmos um apelo por criarmos as nossas vias, por darmos vida a uma ideia, por imaginarmos um caminho, seja numa montanha, numa parede ou num bloco. Mas, na essência desta vontade, está o aventurarmo-nos no completo desconhecido e sermos os primeiros a passar por ali!

Eu sentia esse apelo e, embora já tivesse pintalgado algumas paredes, queria mais, queria descobrir um local e passar dias a imaginar qual a melhor solução para chegar ao cimo…

Esta história remonta ao verão de 2010 quando fui com o Alcino fazer clássica para o Cântaro. A caminho deparamo-nos com um cenário dantesco, a serra encontrava-se pintada de cinzento longe de todas aquelas cores majestosas. Ao regressarmos deste fantástico dia de escalada e ao cruzar a zona da Lagoa Comprida apercebi-me que o fogo deixara ao descoberto hipotéticos caminhos que só eu queria ver…

Em Fevereiro do ano seguinte, depois de uma tentativa frustrada de escalar em gelo, os 12ºC graus positivos obrigavam-nos a regressar mais cedo (o que para mim nem foi mau de todo). Assim surge então o passeio de reconhecimento e as primeiras fotos e, assim, fico com a certeza de que tínhamos parede, certamente uma certeza só minha… Nos tempos que se seguiram vi e revi as fotografias, imaginei e fantasiei traçados que poderiam nunca ser reais pois não era fácil arranjar companheiro de cordada para estas paredes, e eu entendo porquê!

Só a 28 de Agosto desse mesmo ano conseguiria convencer o Miguel Leite e o Vitor Martins que, corajosamente, confiaram em mim e me acompanharam na abertura daquela que seria a primeira via do sector da Lagoa Comprida. Convencer não será bem o termo, talvez enganar, o que na realidade se confirmou, pois eles fizeram tudo menos escalar.

Começamos a escalar quase ao final da manhã, depois de uma aproximação realmente dura. O local em si não é distante mas o acesso estava longe de ser fácil e prevê-se que com o crescer da vegetação se tornasse ainda mais complicado. Felizmente, agora é possível aceder mais facilmente se formos pelo cimo da parede e, em dois rápeis, estamos na sua base.

legenda 1

Depois de perdermos a máquina fotográfica, resta-nos o telemóvel para registar o momento.

legenda 2

O penoso caminho de terra solta, paus secos e muita rocha.

Sem garantias; a única certeza que eu tinha é que não estava nos meus planos utilizar pernos fixos. Esta zona está repleta de fissuras e só tínhamos que aproveitar as fraquezas que a parede nos oferecia e, logicamente, escolhemos a fissura mais evidente, de aspecto mais tranquilo mas que, ainda assim, exigiu ser iniciada em artificial. Uma fissura larga para a qual não tinha friend e um pequeno extraprumo dificultaram a tarefa e obrigaram-me a ser criativo. Para piorar, uma quantidade de pedras entaladas na fissura tornavam o processo mais precário e até perigoso. Escalados uns 5 metros, a parede tomba, o que torna tudo mais fácil. Sigo sempre a fissura e, no meio do musgo e das pedras soltas, eis que vou sacando as presas ideais para que a via se mantenha num grau simpático. Aparece um tecto que me obriga colocar um piton de rocha e a contorná-lo pela esquerda e, depois de uns movimentos em equilíbrio, entro numa trepada um pouco mais fácil que me vai colocar por cima do referido tecto e, a partir daqui, sigo a escalar por um sistema de pequenos blocos e fissuras instáveis, mesmo muito instáveis, que me levam até ao final da parede. Só aqui decido içar a máquina para instalar a reunião.

legenda 3

Sérgio tenta desesperadamente escalar em livre e proteger…

legenda 4

Já na parte final do extraprumo: “Será que esta pedra aguenta comigo?!”

legenda 5

Parte final da fissura, antes do tecto.

legenda 6

A colocar o piton para mais facilmente se proteger.

O Vitor Martins escala de segundo e em livre, retira todo o material (excepto o piton do tecto) e ajuda também na limpeza dos blocos instáveis enquanto o Miguel, em baixo, vai fotografando.

legenda 7

Vitor na trepada final e todo ambiente da via

legenda 8

Enquanto o Sérgio limpa a via e o Miguel espera e desespera

Neste dia de verão eis que surge, finalmente, a primeira via deste sector: “Parto Bravo 6a+?”, uma via com perto de 35 metros. Embora de grau baixo, acaba por ser bastante completa: fissura larga, fissura mais estreita, extraprumo, uma zona mais tombada, um tecto e umas trepadas mais fáceis no final, tudo isto por um granito laranja, nem sempre muito sólido, embora fácil de proteger, mas com presa, e que requer alguma perícia na manobra de cordas (convém alongar bem os pontos do tecto), tudo isto com um ambiente único!

escalada_classica_19

Mais uma vez, o caminho desesperante.

legenda 10

A nossa parede ao fundo e outras hipóteses à espreita.

Lagoa Comprida – sector com muita parede mas, nem toda é tão sólida quanto parece; sem grande dimensão, embora quando escalamos se sinta o isolamento e o facto de nos encontrarmos já a alguns metros; existem várias possibilidades, sempre em fissuras e diedros, facto que exclui a necessidade de pernos. Nunca será uma zona muito popular devido à proximidade do majestoso Cântaro em apenas 20 minutos de carro!

Mesmo depois desta via e de confirmarmos que existiriam outras hipóteses, a tarefa de angariar companhia continuava a não ser fácil. Só em Novembro de 2011 é que eu e o Fred (Frederico Pinto) nos dirigimos à Serra, embora o regresso parecesse amaldiçoado.

legenda 11

Frederico e Sérgio a serem apanhados pelo mau tempo.

Desta vez decidimos fazer a aproximação pelo topo da falésia, tarefa que se adivinhou bem mais fácil, e instalamos um rápel de acesso às vias. Mas, o tempo, que já não estava famoso, surpreendeu-nos e obrigou-nos a retirar carregados de frustração!

No entanto, nem tudo estava perdido: mesmo debaixo de condições invernais, ao voltarmos para o carro, decido que a deslocação não seria em vão e vou literalmente saciar a minha curiosidade e abrir uma pequena caixa de pandora…

Parto Bravo (6a+), 35mt
Sérgio Duarte, Vitor Martins e Miguel Leite
(escalar com atenção; embora já muito mais limpa, esta via pode apresentar algumas pedras soltas na parte final)
28 de Agosto de 2010
Jogo de Frieds (nº 6 pode dar jeito no início)
Cordas duplas, Cintas largas

Parto Bravo

(Mais vias e mais informação detalhada para breve)

 

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Dezembro 27, 2012

Chinelo de Meter o Dedo despede-se de 2012

Acabadinhos de sobreviver ao fim do mundo, decidimos fazer uma retrospectiva do que foi o ano de 2012.

Poderíamos dizer muita coisa deste ano: escalamos em gelo, fizemos alpinismo, escalada clássica, desportiva, corremos e viajamos. Mas, o que mais se salienta foi a falta de tempo…

Pouco tempo dedicado à montanha, pouco para viajar, menos tempo ainda para escrever e partilhar as nossas histórias, o que tornou este espaço um pouco mais pobre, fazendo desta a principal lacuna deste ano.

Para 2013 queremos, acima de tudo, continuar a sair para para a montanha com a família e amigos mas, também, compensar com histórias recentes quem visita o nosso blog .

Para já, despedimo-nos com um pequeno vídeo, fruto de uma das muitas histórias realizadas em 2012 e que ainda estão por contar.

A todos que nos acompanham aqui neste espaço virtual mas, principalmente, a todos os nosso amigos que nos acompanham no terreno, Votos de um Feliz 2013.

Chinelo de Meter o Dedo

Sérgio e Ana

duasfaces_2012

Obrigado a todos os que nos têm acompanhado

As minhas primeiras experiências nas meias maratonas de montanha!

Esta é uma partilha pessoal de toda uma nova experiência  um pouco diferente das que normalmente relatamos neste espaço. Desta vez não se trata de escalada, alpinismo, montanhismo ou até mesmo uma viagem. No entanto, o elemento comum continua a ser a MONTANHA, os espaços naturais, o contacto com a natureza e a vontade de nos superarmos!

Há 7 anos, quando Ana e eu nos aventuramos pelos Alpes, para além de uma nova dimensão da escalada e alpinismo, também nos foi revelado um desporto para nós totalmente desconhecido. Durante duas horas, muitas foram as personagens que desfilaram em passo de corrida à nossa frente, alguns com aspecto de atletas, outros nem por isso, mas todos num ambiente de festa. Assim tomávamos o nosso primeiro contacto com as corridas de montanha, desta feita a prova Rainha: o Ultra Trail Mont Blanc.

Montanhas nos Alpes: um terreno de excelência para a prática de desportos de montanha.

Montanhas nos Alpes: um terreno de excelência para a prática de desportos de montanha.

 

Vistas de Chamonix e os inconfundíveis glaciares do Monte Branco (2005)

Vistas de Chamonix e os inconfundíveis glaciares do Monte Branco (2005)

 

Ultra Trail do Monte Branco: prova rainha da trail de montanha, 2005 (166 km +9,400m de desnível; vencedor JAQUEROD Christophe com 21h 11min e 7 seg)

Ultra Trail do Monte Branco: prova rainha da trail de montanha, 2005 (166 km +9,400m de desnível; vencedor JAQUEROD Christophe com 21h 11min e 7 seg)

 

Ultra trail Mont Blanc, 2005 (nesta edição OLMO Marco chegaria em 3º lugar com 21h 49 min e 57 seg)

Ultra trail Mont Blanc, 2005 (nesta edição OLMO Marco chegaria em 3º lugar com 21h 49 min e 57 seg)

 

UTMB 2005: são várias as personagens

UTMB 2005: são várias as personagens

 

Até os bobos vão para animar a malta!

Até os bobos vão para animar a malta!

 

E o fiel companheiro...

E o fiel companheiro…

 

Mas tudo começou com um e-mail, há dois anos, em que o Vítor Martins me alicia com uma tal prova de 22km na Serra D’Arga, organizada por um tal Carlos Sá. Eu fiquei curioso, mas na realidade estava também em divida para com o Vítor: ele tinha-me acompanhado numa outra história na Serra da Estrela (um outro post que está na forja)!

Tínhamos dois meses para nos preparar, ou pelo menos tentar minimizar o sofrimento. Eu, o Vítor, o Emanuel e o Samuel partimos pela grande rampa que inicia a prova e que é talvez o seu maior obstáculo: mais de 3km a subir e, se não soubermos gerir o esforço, mais tarde pagamos a factura. A prova acabaria por correr sem sobressaltos mas na famosa saída do rio, quase a um 1 km da meta, eu seria atacado por um cão raivoso que se atirou sem piedade aos gémeos, cão de seu nome “cãibras” e que tinha sido atiçado pela falta experiência, mas principalmente, falta de preparação. Ainda assim, em mais de 250 atletas, terminar no 49º lugar foi um alento para a inscrição do ano seguinte.

A prova de 2012 seria a minha segunda participação na distância de 22km em qualquer tipo de terreno, mas desta vez estava disposto a preparar-me um pouco melhor. No entanto, uma queda ao abrir uma via em solitário na Serra da Estrela levaria a que o treino se resumisse a dois meses! Ainda assim tivemos a oportunidade de fazer alguns treinos nos montes em Valongo, em jeito de recuperação activa, embora com algumas reservas. Ia surgindo um espírito muito positivo no seio do grupo que se preparava para enfrentar a segunda edição da Trail Serra D’Arga e isso fez toda a diferença no decorrer dos treinos mas principalmente no dia da prova.

Treino em Valongo, um espaço interessante tão perto de casa!

Treino em Valongo, um espaço interessante tão perto de casa!

 

Vistas da Serra de Pias em Valongo

Vistas da Serra de Pias em Valongo

 

O espírito antes da partida, 2012

O espírito antes da partida, 2012

 

Eu não gosto de competições, mas gosto de me superar e era esse o meu objectivo; tinha a vantagem de saber o que iria enfrentar e, assim, planeei a minha prova.

No dia da prova bastaram os primeiros km’s para eu sentir os efeitos de ainda não estar 100% recuperado: 8km decorridos com fortes dores na perna. Tentava jogar na defensiva e não apertar ao máximo e valia-me das descidas, um terreno que joga a meu favor. Entretanto começava uma dor no peito que me acompanharia por mais de 3 km e quase me levaria a desistir, tal só não aconteceu porque pensei que ao desistir teria que continuar pelo meu pé até ao próximo abastecimento e, continuar por continuar, que fosse a correr!!! Passados quase 16km a correr praticamente só, sinto que o corpo começou a estabilizar e é por esta altura que um atleta passa por mim e me faz sentir que ainda estou em prova. Um pouco mais à frente um dos voluntários informa-me da minha posição e, isso, associado ao terminar das grandes subidas, fazem regressar o alento, e assim penso se não estaria na hora de atacar! Vejo ao longe um atleta e foco-me nesse objectivo, serve-me de motivação e sigo voando por entre os blocos de granito. Talvez pelo facto de estar habituado a trilhos de montanha ou porque arrisco um pouco mais, o certo é que ao entrar no último abastecimento consigo alcançar esse atleta com quem troco umas palavras em inglês (uma prova cada vez mais internacional). A partir daqui, tento gerir a posição e o esforço na esperança de não querer ser atacado pelo “cão” do ano passado! O trilho final, junto ao rio Âncora, é sem dúvida um hino à natureza. Faço-o com alguma precaução e, quando sinto que o cansaço se começa a apoderar, eis que tudo termina e sou recebido na recta da meta por simpáticos populares.

Sozinho a entrar no Rio Âncora

Sozinho a entrar no Rio Âncora

 

Samuel na trepada final nas margens do Âncora, uma autêntica escalada na lama

Samuel na trepada final nas margens do Âncora, uma autêntica escalada na lama

 

Poucos minutos depois da chegada, e graças à tecnologia, surgem os resultados e sou surpreendido com um 7º lugar do meu escalão (menos de 40 anos) e 17º da geral, isto tudo em mais de 450 inscritos. Resta-me esperar pelos amigos que fazem parte da Team DUAS FACES para juntos partilharmos os momentos de sofrimento e glória!

Team DUAS FACES 2012

Team DUAS FACES 2012

 

Pouco mais de um mês e meio mais tarde já me encontro a percorrer os 25km da Mini Trail Amigos da Montanha em Barcelos, uma prova com menos desnível mas mais longa. Durante os primeiros 14km o sofrimento apodera-se novamente de mim levando-me a questionar o porquê de me submeter a estes sentimentos, a esta angústia, se não estaria na altura de desistir…

Durante a Prova "Amigos da Montanha" (foto facebook Amigos da Montanha)

Durante a Prova “Amigos da Montanha” (foto facebook Amigos da Montanha)

O facto de haver mais atletas inscritos, talvez mais atletas habituados à estrada, faz com que o ritmo imposto seja bem mais rápido e isto desgasta-me profundamente. As subidas, onde eu também tinha alguma vantagem, eram escassas e nas zonas planas era vê-los a passar por mim a todo gás. Valia-me a chuva e o frio, as condições ideais para correr, ao contrário do sol e calor que encontramos na Serra D’Arga. Logo após a linha da meta é-me comunicado que tenho a 27º posição da geral e 17º do meu escalão num total de 620 atletas a terminarem a prova. Não deixo de ficar surpreendido e, mais uma vez, volto a esquecer tudo o que passei e a pensar que as paisagens de montanha e que todo o ambiente, principalmente a entreajuda e companheirismo, são as principais razões que me levam a correr em troca de “nada”!

A família também acompanha!

A família também acompanha!

 

No decorrer desta prova tive o privilégio de percorrer alguns km na companhia do grande Armando Teixeira que, acompanhado por outro atleta, passaram por mim em ritmo de treino e a conversar coisas do dia-a-dia. Não deixa de ser impressionante a performance destes nossos atletas, mas a humildade e simpatia seriam as principais características a destacar.

O trail running segue um crescimento sem igual se comparado com qualquer outro desporto. Se tivermos em conta o espirito de sacrifício que se impõe, não deixa de ser curioso! Mas seja por moda, pela facilidade com que se treina a corrida ou outro qualquer factor, eu concordo com as palavras de Denis Urubko quando diz que “é sinal que há muita gente que prefere não ficar sentada em frente à televisão”!

 

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Outubro 11, 2012

Escalada desportiva em Cuenca, Espanha

Férias de Montanha com crianças

Férias. Férias…

Não! Férias tem sempre que ser escrito assim: Férias!!! Ir para fora, ou para fora cá de dentro, com uma longa estrada ou com muitas horas de avião. Férias são férias e como tal merecem sempre um ponto de exclamação à frente. E nós em pulgas para saber como resultariam as nossas primeiras férias “fora de casa” com o pequeno budha. Sendo que o levaríamos connosco nas nossas aventuras, estes dias seriam uma surpresa não só para nós como para ele! Mas o mais importante era mesmo sair e trepar (Ai… trepar paredes…. [suspiro, muitos suspiros] A minha mente ainda tinha memórias do que isso era, mas o meu corpo já nem sabia muito bem em que é que tal consistia.

Sabendo o que pretendíamos, restava-nos reunir a malta e definir o destino.

Aquando da nossa primeira visita a Cuenca ficamos rendidos… e ficou no ar a expectativa de um dia voltar! Por isso, quanto ao destino, não nos foi difícil decidir, não andamos com coisas “ai, para onde é que vamos”, “ai, vamos para ali”, “não, para ali é que era”… Foi fácil, rápido e só não deu foi milhões.

Cuenca.

A cidade é acolhedora, um centro histórico lindíssimo, património da humanidade, bares com deliciosas tapas e um parque de campismo com umas instalações de luxo. Em Cuenca é rocha até perder de vista e a escalada, começa logo ali, sem a dita aproximação (é que nisto de levar a cria, a aproximação passa a ser um factor a ter em conta; carregar com o material de escalada mais os seus belos 13 ou 14kg às costas tem que se lhe diga e assim, é estacionar o carro e atravessar a rua e “dá às perninhas que já tens idade para isso”). A somar a tudo isto a vantagem de um “pé de via” bem tranquilo para crianças, estas eram sem dúvida razões de sobra para reunir unanimidade na escolha do destino.

E lá fomos.

Carrinha atulhada até cima que, a somar à parafernália do costume, leva cama de viagem, fraldas, toalhitas, mudas e mais mudas de roupa, livrinhos, carrinhos, bonequinhos e tudo o mais terminado em inho … Ah, pois é! Ter um filho não é impeditivo de nada, mas temos que nos adaptar! É toda uma outra logística a ter em conta.

Rodas ao caminho, viagem tranquila, o pequeno aguenta-se como um campeão, as conversas pré-escalada do costume (porque no regresso a conversa é outra): “ai que não escalo há 3 semanas”, “nem te admito que digas isso, eu não escalo há 3 meses” (moi meme); “e eu que tenho aqui uma lesão nem sei como vai ser” – a idade já não é o que era e aqui os trintões só se sabem queixar. E… primeira paragem: Gredos.

Já tinha estado em Gredos em Fevereiro de 2007. Na altura fui mais numa de companhia e passeio, deixei o Sérgio e o Alcino na plataforma gelada, eles foram à vida deles para paragens mais geladas e, como o frio não é para mim, acabei por conhecer os arredores da Serra de Gredos. Mas, após tantas histórias sobre este pequeno mas idílico local fiquei sempre com curiosidade e nada melhor do que aproveitarmos o início da primavera para visitarmos e proporcionarmos ao nosso pequeno uma primeira experiência de montanha!

O local é realmente muito belo, o degelo de início da primavera dá um aspecto muito especial e imponente, mas a caminhada para além de muito bonita foi um pouco penosa (não, não levava o Matias às costas, estava mesmo é em baixo de forma). Cruzamos prados cheios de flores de primavera, riachos de águas cristalinas até nos depararmos com aquelas paredes lindas e imponentes pinceladas por bocadinhos de neve. Lindo como só a natureza no seu estado rude e puro consegue ser.

Depois de nos deslumbrarmos com o circo de Gredos era altura de tratarmos do corpo, primeiro com uma visita obrigatório aos combinados no bar dos montanheiros, pratos soberbos confecionados com produtos da região e depois dormir, pois temos uma criança connosco e nós também estávamos a precisar de uma boas horas de sono. O Matias acabaria por descobriu o que é um frontal para que serve e adorou a ideia. Esta era também a nossa primeira noite juntos na nossa carrinha e na realidade a noite foi bem mais agitada do que esperávamos!

O dia seguinte foi para rumarmos ao nosso principal destino e instalarmo-nos.

Instalamo-nos num belo bungalow no Camping Cuenca, uma óptima opção para as primeiras férias com crianças. Abastecemos devidamente a casa mas ainda faltava algo…

Falta escalar! Falta pôr mãos nesta bela rocha e desfrutar do local, das paisagens das vias que tanto prazer nos dão. Falta enchermo-nos de magnésio, terra e pó. Falta dar um mergulho no rio para refrescar do calor.

E foi tudo isto que fizemos nos dias seguintes.

Escalamos vias que já conhecíamos; escalamos vias novas; exploramos sectores anteriormente visitados e aventuramo-nos por outros ainda desconhecidos; rompemos pele; encadeamos; caímos; queixamo-nos de estar em baixo de forma; das dores nos músculos; superamo-nos; incentivamo-nos; rimo-nos; inventamos vias novas (ou não seriamos nós tugas); fizemos a “siesta”, filmamos tudo e mais alguma coisa; tiramos fotos… enfim… foi tudo o que se espera de uma semana num sitio em que se vê rocha até ao horizonte, onde, apesar das temperaturas elevadas, se consegue escalar sempre à sombra, onde se vive ambiente fanático mas também tranquilo e até onde se pode ver o Luís Alfonso Félix a encadear um fantástico 8C+: Peor Maria. Muito bom poder assistir ao vivo a um encadeamento destes, encadeamento que soubemos pelo próprio estava na forja já algum tempo. O Matias fez amizades, apercebeu-se do que é o “pé mão” (na falta de vocabulário foi o que ele arranjou para descrever escalada), divertiu-se muito e nós também!

Mas não só de escalada rezaram estas férias.

Além de rompermos as mãos…

Das quedas…

Ainda houve tempo para a cultura.

Visitamos o centro histórico, presenciamos a festa religiosa da cidade, fizemos almoços e jantaradas bem regadas no nosso alpendre e viram-se filmes de escalada (intercalados pela Xana Toc Toc, pelo Elefante Babar ou pelo Pocoyo).

Foram umas férias em grande: boa companhia, boa escalada, alguns encadeamentos, tirou-se os dedos de misérias (pelo menos comigo assim foi)…  mas o que mais me agradou foi aperceber-me que o Matias se sentiu em pleno na vida ao ar livre e portou-se exemplarmente.

O regresso foi feito tranquilamente.

Reinava a boa disposição e a conversa já era outra: “e aquela via”; “e aquele passo”; “aquela queda”; “temos que ir ali para o ano”; “para a próxima podíamos ir para aquela escola ou a outra”.

Certamente um local a regressar pois o pequeno adorou, os papás adoraram e o Tio Fred e o Tio Ninó também!

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Outubro 2, 2012

Escalada Clássica, regulamento UIAA

Escalda Clássica, Terreno Aventura, Escalada de Autoprotecção, Trad Clinbing

Não havendo regulação, como em tudo no mundo da montanha, há uma ética a ter em conta!

O futuro da escalada de aventura pode ou não estar comprometido com a utilização dos expansivos e é importante estarmos informados para sermos conscientes dos nossos actos.

A Desnível reproduziu um documento que expressa a posição da UIAA sobre a preservação da “rocha” e, como este é um tema que nos preocupa, decidimos partilhar com todos este artigo.

Mais do que a federações, clubes, associações ou parques naturais o futuro da escalada depende muito mais de nós…

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Agosto 22, 2012

Peña Ubiña

Alpinismo em Espanha na Cordilheira Cantábrica

Diz o ditado que recordar é viver mas, na realidade ao recordar esta passagem, tudo o que sinto é só e apenas a recordação e, para ser sincero, não me apetece viver certos momentos daquele dia de escalada! Terá sido esta a razão pela qual demorou tanto a escrever este post? Não. Foi mesmo falta de tempo (ou então isto é uma grande desculpa)!

Depois de anos a tentarem vender-me o sonho americano (perto, curta aproximação, imensidão, compromisso e 24h depois estamos de volta a casa) tudo era, sem dúvidas, razões de sobra para conhecer a Pena Ubiña. Mas, só desta vez me decidi alistar…

Depois de um inverno vergonhoso eis que surge um fevereiro realmente invernal, uma semana inteira a nevar impossibilita-nos de lançar o ataque e, passados 15 dias, ali estamos nós na Residencial “Paragem de Autocarro” com 1ºC positivo às 00.00 horas!!!

Residência Paragem de Autocarro

O nascer do dia revelava-nos uma paisagem realmente bela, com as cores do céu a rasgarem a escuridão por trás da nossa montanha. Enquanto eu registava este momento, o Alcino e Emanuel planeavam a estratégia e o hipotético traçado.

Alvorada bem cedo, enquanto a aldeia ainda dorme.

O nascer do dia ou o terminar da noite?

Aproximação à parede Noroeste

A cara noroeste oferece na realidade uma imponência e verticalidade tremendas, algo que se sente à medida que nos aproximamos do paredão por onde se inicia a via Brojos-Sio (AD).

Últimas rampas de neve antes do inicio da vida Brojos-Sio, Pena Ubiña

Segundo os croquis, o passo mais duro seria mesmo no início, coisa que o Emanuel pode comprovar depois da dura batalha travada contra uma fissura e falta de possibilidades para fixar as pontas dos piolets e crampons, mas a persistência e imaginação levam avante e passados alguns minutos eis que ele desaparece num estreito corredor.

Emanuel inicia a batalha

Movimentos inicias de escalada mista

Duros movimentos e a necessidade de ser criativo!

Quando me junto aos meus companheiros de cordada percebo que a única reunião digna deste nome era o conjunto de nós os 3 e os dois stoppers, caricatamente entalados a desfazerem a rocha quando me preparo para os retirar. Aqui, começo a aperceber-me da precariedade que a rocha oferece.

Será isto a primeira reunião?

Escalada em largos metros sem grandes hipóteses de protecção

Em ensemble, com o Emanuel a passar um ressalto de rocha podre, é claro!

Avançamos por mais um largo de neve precária (devido às altas temperaturas) até encontrarmos um maravilhoso buril que me oferece alguma segurança psicológica. Um só e antigo ponto e, mesmo assim, esta é a mais sólida reunião de toda a via. A partir daqui é para seguir em ensemble por um largo de quase 40 metros que o Alcino resolve com mestria, mas com apenas 2 pontos de segurança muito frágeis. A somar a falta de locais sólidos para proteção temos uma temperatura caricata: 9ºC à sombra.

Alcino imagina uma reunião!

Alcino avalia o próximo largo de escalada

Para mim, torna-se uma verdadeira batalha psicológica, a neve cada vez mais empapada, estilhaços de neve e rocha a assobiar como balas na nossa direção… todos estes fatores começam a mexer com a minha confiança.

Alcançamos uma plataforma bastante ampla e eis que apresento a intenção de abandonar a via. Neste momento sinto-me completamente exposto e a minha intenção de poder abrir qualquer largo deste traçado estão postos de lado. Depois de analisarmos a situação chegamos à feliz decisão de abandonar esta via que se encontra mais exposta aos sol e seguir uma travessia à direita de forma a entramos na via Elixir de la Suerte (AD) um pouco mais resguardada.

A partir daqui continuamos com uma escalada de reunião em reunião onde abro os meus primeiros largos e na realidade sinto na pele o que é tentar montar uma reunião nesta montanha. O penúltimo largo é aberto por mim e acaba por ser o mais interessante de toda a via com uma cascata de gelo com uns escassos metros a fazer as delícias. Ainda tenho tempo de presenciar um bloco de gelo que explode a uns 3 metros de mim e comprova que o melhor mesmo é continuarmos ligeiros.

Sérgio prepara-se para abrir o penúltimo largo

Sérgio nos metros finais da via

Seguimos até ao cume por uma estética aresta que nos presenteia com umas vista soberba sobre as montanhas Asturianas!

Aresta que nos leva até ao cume

No cume da Pena Ubiña, 2417 metros de altitude

O regresso por uma outra face da montanha

Para mim, era o fechar da época de gelo que se torna de ano para ano mais e mais curta. Na realidade nunca me tinha sentido tão precário em qualquer outra situação na montanha e isso fez-me repensar tudo o que tinha vivido até àquele momento.

Talvez tenha sido eu a razão pelo abandona desta vida, mas uma cordada é formada por duas pontas que devem seguir o mesmo sentido…

Alcino, Emanuel e Sérgio

Cróquis do itinerário escalado

Começamos pela via Brojos-Sio cotada como AD (algo difícil), depois de uma grande travessia à direita entramos na Elixir de la Suerte, também cotada como AD (mesmo escalada desde o inicio não se encontra nenhum passo tão duro como o arranque da Brojos-Sios). A dimensão de qualquer uma destas vias é de 550m (pelos croquis).

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Abril 9, 2012

Escalada Clássica no Parque Nacional da Peneda Gerês, Meadinha

Um dia de escalada entre amigos na Meadinha.

(É importante explicar que não seguimos nenhuma ordem cronológica nos post’s, apenas a disponibilidade e a imaginação necessárias, ainda assim não temos desculpa, este estava na forja desde Setembro passado…)

Chegar à Peneda e depararmo-nos com um ambiente quase de encontro, uma atmosfera amistosa que agradavelmente se manifesta em cumprimentos, abraços e breves conversas torna tudo ainda mais interessante. Era quase um ajuntamento de amigos que se avizinhava animado e quente e a temperatura ajudava a tal.

Hotel da Peneda com a Meadinha

Os planos traçados pelo caminho desvaneciam-se ao vermos que existiam outros planos a chocarem com os nossos. Assim o meu plano A: tentar o “S” (para mim pela primeira vez) ficava para uns espanhóis. Plano B: a “Auto Pista” ficava para a cordada do Marco, e esta e aquela e logo se vê… felizmente na Meadinha vias não faltam!

Para quem tinha só umas escassas horas, o importante era fazer render o tempo e, assim, o Emanuel inicia-se na “Come Cocos”. Ainda que por uns anos afastado deste mar de granito, este é sem dúvida um espaço onde o Emanuel se sente em casa e onde é feliz quando escala, logo, restava-nos seguir as suas pisadas. Em ambos os lados seguia-se uma conquista vertical quase renhida! Esta era apenas a via para ambientar e a alternativa criava-me alguma pressão, aquele nervoso miudinho que vai crescendo quando as desculpas escasseiam e nós sabemos que não podemos evitar mais o destino.

Emanuel na “Come cocos”

Desde que visitei pela primeira vez a Peneda, ainda não me imaginava a penar nos ínfimos cristais, já eu me deixava deslumbrar pelo grande tecto que a Chus Lago e os Josés abriram nos finais dos anos 80 e acabariam por apelidar de “Merlin”: um espaço de magia tão belo e inspirador quanto singular. Ano após ano eu arranjava as minhas desculpas: não tenho experiência suficiente; falta-me confiança; necessito de mais continuidade; está molhada; etc. etc. E, assim vivia eu na esperança de que um dia o destino decidisse por mim, e por vezes o destino prega-nos partidas!

O característico tecto da “Merlin” e ainda um pouco do “Chapéu”

A sombra que este grande e majestoso tecto oferece foi mais do que a justificação que confirmava que tinha chegado o dia e, se eu hesitei, o Alcino não. Rapidamente se lançou numa linha ao lado esquerdo da “Escaleras al Cielo” (não sei o nome), recentemente limpa e que se escala com tranquilidade; uma boa opção para quem foge a surpresas e pretende graus mais simpáticos. Ao Emanuel coube o fantástico segundo largo das Escaleras, nada de novo para ele.

Alcino abrir o, possivelmente, primeiro e original largo da “Escaleras”

E ali estava eu plantado à sombra do gigante, tentando encontrar a devida tranquilidade para enfrentar esta via que pelo aspecto do mar de musgo não deveria ter tido muitas visitas nos últimos tempos, juntando ao facto de este ter sido um verão bastante húmido, o que fazia com que o seu aspecto fosse de um verde vivo ao contrário do cinza granítico que eu tanto desejava.

Sérgio segura o Emanuel que se delicia no segundo da “Escaleras”

Não sei bem porquê mas inicio a via com o coração a tentar saltar pela boca fora. Os primeiros movimentos são de precisão mas de grande beleza, sentia a necessidade de me focar mesmo sendo arrebatado pelas sucessivas passagens do helicóptero que para o lado oposto do vale transportava água para um lamentável incêndio. A via é (hoje) dividida a meio pela reunião das “Chaves do Ceo” e eu decido parar para ganhar algum folego. Agora sim começava a sentir aquela espécie de transe que se apodera de nós quando a escalada é perfeita.

Lamentável cenário e o tremendo trabalho levado a cabo pelo helicóptero

O que minutos antes eram desculpas e medos naquele momento eram as regras do jogo que eu estava disposto a aceitar. A via escala-se assegurado com as mãos na fissura que divide o tecto da parede lisa onde cuidadosamente se colocam as pontas dos pés-de-gato e, há medida que percorro a fissura, esta ganha lentamente alguma dimensão, o mesmo acontecendo com os meus antebraços, e como a parede faz um pequeno arco, já só para lá de meio começamos a ver o final onde as coisas se tornam mais complicadas. A parede torna-se ainda mais vertical e o aparecimento de um ressalto negativo na parede por baixo dos meus pés não ajuda em nada. Após este ressalto e acabado de colocar um friend vejo a uns escassos metros uma gota como que à minha espera (sinal de um verão húmido). Neste momento, por muito que tente descansar alternadamente os braços, já pouco se consegue ganhar e, quando me apercebo que a reunião esta próxima, decido então avançar até ao próximo friend. Ao descansar um dos braços sinto que aquela gota me pode atraiçoar e num ápice sem qualquer hipótese de temer o vazio abandono a minha posição e começo a cair, cair, até ao primeiro esticão e depois o segundo até parar uns consideráveis metros lá no fundo. Só aqui me apercebo do sucedido e caiem por terra qualquer hipóteses de escalar a Merlin à vista… Mas a experiência era sem dúvida positiva; a queda essa foi a maior que tive em toda a minha vida de escalada, nem mesmo na desportiva me dei ao luxo de uma queda de 8 metros ajudados por 2 friends que saltaram.

Sérgio no início da fissura da Merlin

Muito musgo à mistura para apimentar a coisa!!

Belas paisagens nos oferece a Peneda!

Musgo e os braços a começarem a inchar!

Pedi ao Emanuel e ao Alcino paciência, mas estava a voltar a mim, eram muitas as emoções a assimilar e eu tinha mesmo que saborear tudo aquilo.

Já pendurado depois da queda

Emanuel a escalar de segundo a Merlin

Movimentos iniciais da via Merlin

Alcino retirar o material da via

A ideia era terminar saindo pela “Directa a los Techos”, mas o tempo perdido nestas andanças roubaram-nos qualquer hipóteses de continuar. Terminamos a Merlin e por fim rapelamos e retemperamos forças sempre de olhos pregados nas enumeras cordadas que naquele quente dia de Setembro se tinham aventurado.

Para mim foi sem dúvida um dia perfeito, ainda que o plano de escalar a via à vista não se tenha concretizado. A experiência e os momentos que ali passei fazem da escalada uma actividade tão singular como espectacular, ainda assim muito difícil de colocar em palavras o que sentimos nestes momentos únicos!

Um pouco do que a Meadinha tem para nos oferecer!

Fotografias de: Alcino Sousa, Emanuel Maio e Sérgio Duarte

Mais informação sobre a Meadinha em:

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Fevereiro 22, 2012

Escalada da Face Norte do Almanzor, Gredos

Um regresso muito esperado: à neve ou a Gredos?

Num inverno extremamente seco e frio, a chuva que teima em não cair, escasseiam-se os feriados, mais e mais portagens, combustíveis fora de controlo, a família exige cada vez a nossa presença, o nosso coração sente cada vez mais a sua ausência e a nossa alma exige espaço aberto e momentos de incerteza.

São 22H e o empedrado que nos conduz até à lagoa recebe as nossas primeiras pisadas na recente capa de neve fofa. É um momento em que caminhar pela escuridão, a altas horas da noite, com uns simpáticos -5º, lembram-nos com prazer o objectivo desta nossa viagem.

O objectivo será o mesmo, a audácia é um pouco diferente, mas a rebeldia, essa já quase não existe, e se eu pensar bem passaram 8 anos desde a minha primeira (visita) ao Almanzor.

No passado:

Sem nenhuma experiência em escalada e muito menos em neve, eu e Paulo (Ramos) deixamo-nos levar pela vontade, vontade de seguirmos, ainda que tendo que trilhar o caminho pela via normal quando nos enterrávamos 50cm a cada passo, e quando arrastávamos pela primeira vez uns estranhos instrumentos nas botas e uns enormes piolets de travessia que ainda à pouco estavam na estante de uma loja prontos a fazerem uma curta amizade com dois estranhos.

Uma subida extremamente penosa e, ao contrário dos dias de hoje, neve era coisa que não faltava. Mais um passo e mais uma vez me via puxado pelos 50cm de neve mole. Valia-nos a boa forma física e a vontade, vontade de pela primeira vez experimentarmos sermos alpinista, ou tentar! Subirmos por uma pendente acompanhados pela ideia de que, 30 dias antes, um jovem Português com muito mais experiência do que nós tinha perdido a vida numa avalanche neste mesmo local… Depois de uma árdua luta para superar a grande inclinação da Portilha del Crapon eis que, chegados ao final da pendente, o estreito vértice e acentuado desfiladeiro para o outro lado retirava-me qualquer esperança de alcançar o cume, ainda que a escassos 25m dele. Neste dia aprendia uma grande lição: “o importante é ficar bem para tentar de novo; a montanha, essa, está sempre lá”!

O presente:

Depois de descansarmos numa tenda gelada durante 3 horas e sem ser necessário o relógio despertar, eram 5h quando o pequeno-almoço se anunciou, quase tão reconfortante quanto apreciar os primeiros raios de sol, que momentos depois espreitavam por traz de uma muralha de rocha e neve. Presenciar aquele momento faz valer a pena todo o esforço, todo o frio, cansaço, toda a saudade… Este momento cai na minha alma animando-me para enfrentar aquela curta mas fria face Norte que nos proponhamos explorar.

A caminho, pela escuridão da noite e o frio do inverno

A placa nos Barrerones

Hotel 5 estrelas ou, direi, um mar de estrelas!

Fantástico nascer do dia

Os primeiros raios de sol

Aqui o nascer do dia tem outro encanto!

Emanuel Maio

Aproximação ao Almanzor

Nuno próximo do inicio da via

A caminho da face norte

Éramos os primeiros naquela manhã e ao fundo via-se o refúgio com as primeiras movimentações. A cordada do Alcino e Emanuel superavam o primeiro ressalto de rocha e gelo que inicia a via, enquanto eu e o Nuno permanecíamos impacientes e gelados fintando as constantes cascatas de neve solta que nos fustigavam.
(Alcino a ser fustigado por esta corrente de neve, um excelente momento registado nesta fotografia)

Procurem o Alcino por de baixo da cascata de neve!

Nuno no início da via e num dos crux da via!

Uma pendente de neve na Face Norte do Almanzor

Eu num belo largo de terreno misto

Depois de este interessante ressalto de rocha com saída em neve, o Nuno segue por um pequeno corredor de neve até onde monta a primeira e precária reunião. Logo de seguida, e após um longo período de ausência de neve, sendo que a minha última incursão foi na Estrela Nocturna na Serra da Estrela (em Março de 2010), escalo entusiasmado por um canal de neve estreito num terreno misto com um e outro passo de oposição até encontrar o Emanuel.

Alcino escala em rocha na ausência da cascata

Enquanto chegávamos, eles saiam, e visto que não existia a tradicional e clássica cascata de gelo, o recurso era uma escalada em rocha com crapons e piolets completamente ausente de neve, cotado nos croquis como IV+, onde o Nuno mostrava que tem ido aos treinos e que o melhor mesmo era fugirmos a uma terceira cordada que nos mordia nos calcanhares.

Nuno inicia um excelente largo de terreno misto

Depois desta secção de rocha entravamos numa pendente menos prenunciada de neve que fechava num estreito canal de rocha peculiarmente coberto por uma capa de neve e gelo extremamente fina, tão fina que não fixava as pedras que aqui se encontravam. Montada a reunião no início deste canal, o Nuno percorre esta secção de uma forma tão desembaraçada quanto surpreendente foi ver o Emanuel e o Alcino escalarem este tramo em “ensamble”. Depois de um curto largo era altura de recebermos de braços abertos o SOL. Agora sei o porque na maioria das montanhas a Face Norte ser a que mais respeito implica: permanecer uma manhã com constantes quedas de neve, enregelados e com as mãos e pés completamente insensíveis.

Alcino nos últimos metros

Nuno numa paisagem soberba na trepada final.

Vários anos depois de ter olhado pela primeira vez para o cume desta montanha era altura de pisar o cume. A recompensa era um dia de sol soberbo e um percurso de quase 8 anos de aprendizagem e de momentos fantásticos. A recompensa o cume?! Há melhor recompensa do que o percurso até ele?!

Foto do cume. Finalmente o sol!

Depois de absorvermos uns quantos minutos de sol, era tempo de descermos pela via normal, via esta que anos antes me tinha levado toda a rebeldia e desta vez não era mais do que uma escalada.

Rapidamente descemos até à tenda que aguardava por nós na companhia das nossas mochilas e algumas horas depois estávamos de novo na plataforma, com as temperaturas a caírem abruptamente.

Na descida, a caminho da “portilla del crampon”

Cascatas num inverno muito seco!

Naquele ano de 2004 depois de descer daquele empinado corredor e de me encontrar confortavelmente sentado no muro do Elola, as questões sucediam-se e eu tentava arranjar respostas. Hoje percebo que não temos que ter sempre resposta, podendo simplesmente viver as experiências que nos proporcionam prazer.

Refugio Elola, Gredos

A caminho, sobre a lagoa grande congelada!

Fotos: Alcino Sousa, Emanuel Maio, Nuno Teixeira e Sérgio Duarte
Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Janeiro 30, 2012

Alpinismo em Espanha

NOTÍCIAS FRESQUINHAS!

O cume! Para mim, sem dúvida, o mais importante é mesmo o caminho percorrido para lá chegar, caminho esse que pode ser de 8 anos!

Como tudo pode mudar quando existe um processo de experiência adquirida.

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Janeiro 10, 2012

Escalada Desportiva Espanha, Monte Galiñeiro – Vigo

UMA DATA SEMPRE ESPECIAL

E para comemorar uma data especial (que já aconteceu ainda nem época das castanhas era, excepto para aqueles vendedores de rua que ainda está calor e já as andam a assar, mas este blog andou paradito porque isto de ter um pequeno budha lá em casa não deixa muito tempo para estas coisas), nada como uns dias em terra de nuestros hermanos para um passeio, uns comes, uns bebes e, claro, uns trepes e destrepes.

E trepes e destrepes no meio de amigos, boa companhia, muitas risadas, muitos “vai lá que consegues” ou mesmo “vai lá que é um bolso”, só poderia ser a cereja no topo do bolo, ou neste caso, o “encadeamento” de um excelente dia.

Ah! E como “Ano novo, vida nova”, um compromisso para o novo ano é retomar a regularidade na escalada (já ressaco rocha e até snifo magnésio só para relembrar) e nas publicações aqui no Chinelo.

A apreciar a escalada, o momento, a natureza... a vida é boa!

A proveitar para tirar a barriga de misérias, melhor dizendo, o pó aos pés de gato

Aaahhh... Que saudadinhas!

O Fred a aquecer

A Anne a mostrar como se faz

O Vitor a aquecer os motores para o que aí vinha

Concentração

O dia era meu e do Sérgio, mas rapidamente passou a ser do Vitor que sacou o seu primeiro 7a assim... sem espinhas!

Foi a via do dia. Andou lá tudo a tentar a sua sorte. Alcino...

Desta vez o Sérgio a tentar sacar este projecto.

E encontram-se companheiros de rocha onde menos se espera e o Ramone lá se atirou ao 7a.

Depois de pormos mãos à rocha andamos a explorar terras lusas - praia fluvial em Monção

« Newer Posts - Older Posts »

Categorias