Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Janeiro 30, 2012

Alpinismo em Espanha

NOTÍCIAS FRESQUINHAS!

O cume! Para mim, sem dúvida, o mais importante é mesmo o caminho percorrido para lá chegar, caminho esse que pode ser de 8 anos!

Como tudo pode mudar quando existe um processo de experiência adquirida.

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Janeiro 10, 2012

Escalada Desportiva Espanha, Monte Galiñeiro – Vigo

UMA DATA SEMPRE ESPECIAL

E para comemorar uma data especial (que já aconteceu ainda nem época das castanhas era, excepto para aqueles vendedores de rua que ainda está calor e já as andam a assar, mas este blog andou paradito porque isto de ter um pequeno budha lá em casa não deixa muito tempo para estas coisas), nada como uns dias em terra de nuestros hermanos para um passeio, uns comes, uns bebes e, claro, uns trepes e destrepes.

E trepes e destrepes no meio de amigos, boa companhia, muitas risadas, muitos “vai lá que consegues” ou mesmo “vai lá que é um bolso”, só poderia ser a cereja no topo do bolo, ou neste caso, o “encadeamento” de um excelente dia.

Ah! E como “Ano novo, vida nova”, um compromisso para o novo ano é retomar a regularidade na escalada (já ressaco rocha e até snifo magnésio só para relembrar) e nas publicações aqui no Chinelo.

A apreciar a escalada, o momento, a natureza... a vida é boa!

A proveitar para tirar a barriga de misérias, melhor dizendo, o pó aos pés de gato

Aaahhh... Que saudadinhas!

O Fred a aquecer

A Anne a mostrar como se faz

O Vitor a aquecer os motores para o que aí vinha

Concentração

O dia era meu e do Sérgio, mas rapidamente passou a ser do Vitor que sacou o seu primeiro 7a assim... sem espinhas!

Foi a via do dia. Andou lá tudo a tentar a sua sorte. Alcino...

Desta vez o Sérgio a tentar sacar este projecto.

E encontram-se companheiros de rocha onde menos se espera e o Ramone lá se atirou ao 7a.

Depois de pormos mãos à rocha andamos a explorar terras lusas - praia fluvial em Monção

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Dezembro 16, 2011

Escalada Clássica no Naranjo de Bulnes, Picus de Europa

 

“Direta de los Martinez”, “Paso Horizontal”, “Cepeda” e “Vuelo del Dragon”

 

Ainda que a nossa história esteja a repleta de nomes fantásticos e termos imaginários, a protagonista é a montanha das montanhas, a rainha das montanhas Espanholas. Ainda que para nós (Alcino, Emanuel, Fred e eu, Sérgio) estar aqui parecesse um conto de fadas, as vivências aqui narradas são bem reais e felizmente, depois de muito sonharmos, a viagem até aos Picus acabou mesmo por acontecer!

Terra dos sonhos

“Vai ser sem dúvida este ano…” – este era o plano para o final do Verão de 2010. Mas, a paternidade revelou-se prioritária e uma experiência bem mais real!

Finais de Julho 2011 parecia-nos fantástico. A ideia era fugirmos das romarias de Agosto e, se possível, apanharmos condições atmosféricas mais favoráveis. Por isso, estava decidido e era altura de fazermos os nossos planos.

Na verdade, a via “Amistad com El Diablo” na face Este foi sempre o meu principal objectivo.

Depois da minha primeira incursão pelo Naranjo esta face fascinou-me e passou a  fazer parte dos meus planos. Ao ver os muros verticais de calcário que a Este ostenta decidi pesquisar qual a via que me parecia oferecer o melhor itinerário e sem dúvida que a Amistad era das mais recomendadas. Fontes próximas asseguravam-me que o mais certo era não estar sozinho na via e isto desagradava-me mas, sendo o Naranjo, só tinha que aceitar. Na última semana, ao reunir a informação para a escalada, dei de caras com uma descrição que me transportou no tempo. Depois de mais de uma ano a sonhar, em breves minutos altero a minha ideia principal e eis que tinha encontrado a via que me parecia encher as medidas…
 

Rapidamente passou a semana e num piscar de olhos estávamos nós carregados com mais de 20kg às costas e com um ambiente que, ainda que húmido, era perfeito para este tipo de aproximação.

Prontos para um belo passeio

 

O caminho de aproximação ao Refúgio Veja de Urrielo é, para quem nunca andou por estas paisagens, uma belo exemplo do que os Picus de Europa têm para oferecer. Picos de calcário cinzento que se erguem de pequenos prados verdejantes abruptamente, como que a apontar para o céu. Não sendo montanhas muito altas são sem dúvidas paisagens com um aspecto austero e agreste que merecem muito respeito. A marcha de aproximação é um belo passeio, sempre acompanhados por uma banda sonora proporcionada pelos rebanhos que pastam tanto nos terrenos mais escarpados como nos pequenos bosques de faias que podemos deslumbrar pelo caminho. Não fosse o excesso de peso e este tinha sido um delicioso passeio.

 

Paisagens dos Picus

 

 

As últimas casas que avistamos, neste caso, um pequeno refúgio

Embora se tratasse da minha segunda visita esta era a primeira vez que tinha a oportunidade para me regalar com as vistas; o tempo característico dos Picus tinha-nos privado da primeira vez.

A ideia era bivacarmos junto do refúgio e fazermos a nossa vida em total autonomia e a pequena tenda que carinhosamente transportávamos era apenas para uma eventualidade que acabaria por surgir logo no primeiro dia. Como já é hábito, as Astúrias oferecem uma meteorologia única que pode mudar em poucos minutos, embora nada fizesse prever que quatro marmanjos tivessem que passar várias noites numa tenda minúscula que devidos às chuvas torrenciais e sensação térmica que ao rondar os 0ºC não convidava ao bivaque. Mas afinal onde para o verão?

 

A nossa casa para as próximas noites

Escusado será dizer que choveu torrencialmente toda a noite e o vento forte e as baixas temperaturas fizeram que a nossa estadia neste pequeno espaço se prolongasse até as 12h e que a estas horas, quando finalmente a chuva cessou, já os poucos visitantes tinham deitado por terra as suas esperanças de escalar e um a um abandonavam o refúgio. 
 
Como quem espera desespera, decidimos aventurarmo-nos pela face Sul e esperar não dar a dolorosa aproximação como perdida. Uma escalada na Face Sul sempre dava para ambientar e não se dava o tempo por perdido. 
 

Penosa aproximação à face Sul

 

O Alcino e Emanuel decidem estrear-se no Naranjo com a clássica “Direta dos Matinez” enquanto eu e o Fred decidimo-nos pela via do “Paso Horizontal”. Não deixa de ser impressionante que esta via que nos oferece um ambiente único foi aberta em 1928 em solitário pelo herói de Manuel Martinez. O primeiro largo é simples e conduz-nos por um esporão onde é fácil proteger o segundo largo. É algo que não esperávamos encontrar nesta via e o Fred inicia-o, revelando-se um espectacular largo de fissura (neste caso em canelizo), de início quase vertical e termina praticamente 40 metros depois. O famoso largo do passo horizontal, uma bela travessia que, embora seja fácil de proteger, nos oferece um ambiente muito particular, levar-nos-ia ao encontro das únicas pessoas que escalavam o Naranjo nesse dia: o Emanuel e o Alcino.

 

Fred no ínicio do segundo largo: 40 metros de fissuras

Fred no 2º largo da via "Paso Horizontal"

 

Frederico na via Paso Horizontal

 

Fred a chegar à reunião que inicia o largo mais popular da via

 

Sérgio a meio do Paso Horizontal. Grande ambiente!

 
 
Reunidos os 4, decidimos fugir com rapidez da gélida sombra para alcançarmos a aresta cimeira que nos conduziria ao cume e, desta vez, ainda um pouco mais sós, sem a presença da Santa, mas, em contrapartida, com um mar de nuvens por baixo dos nossos pés que reflectia um mágico e belo pôr-do-sol. Realmente um presente para a nossa perseverança… 
 

Encontro com a outra cordade na Via Martinez

As vistas da Face Sul do Naranjo

 

Curiosa protecção a fazer lembrar tempos passados

Já a iniciar o anfiteatro

 

Mar de nuvens abaixo dos nossos pés

 

Impressionante caminho na aresta para o cume

 

Juntos no cume do Picu Urrielo

 
 
Regressamos na penumbra mas com as almas a iluminar o caminho. O frio fazia-se sentir a cada minuto que passava, sentíamos a noite a penetrar nos nossos ossos, ninguém diria que estávamos nos finais de Julho.
 
Era altura de recolhermos ao nosso super aconchego e recuperarmos forças. A manhã voltava a ser húmida mas sem chuva e, embora com algumas nuvens, o sol lá ia espreitando.
 
Com este ambiente húmido e frio a face Norte estava fora dos planos restando a Este e Oeste e com mais 4 dias pela frente parecia um plano audaz. Mas, se os astros estivessem alinhados, certamente conseguiríamos.
 
Enquanto contornávamos a tremenda massa de rocha que é esta montanha em direcção à face Este, pensávamos se estaríamos a ser sensatos, é que as previsões no refúgio apontavam para mudança das condições climatéricas para pior no decorrer da tarde. O sol era simpático mas sabíamos que neste ponto da Europa o tempo é peculiar e consegue surpreender-nos num ápice.
 
Seguimos até avistar novamente a incrível face Este. O Alcino e o Emanuel aproximaram-se da famosa lage em forma de Y que dita o início da via Cepeda, uma clássica por excelência aberta em 1955 e que percorre as fragilidades naturais desta face, uma via muito inteligente e audaz para a época mas que ainda hoje continua a surpreender.
 

3º dia: a caminho da face Este

 

Apreciar a face Este e planear a escalada

 

Enquanto isso, eu e o Fred andávamos na azáfama de tentar descobrir o nosso percurso vertical para as próximas horas: “El Vuelo del Dragon”. Uma via de estilo moderno que percorre uma das partes mais verticais da parede, com zonas de aderência e onde o excelente calcário do Naranjo chega aqui às 5 estrelas, recomendada por muitos guias e que era descrita como uma pequena pérola, pequena pela sua dimensão mas grande em emoções, com um largo, considerado por muitos, um dos melhores do Naranjo. Esta foi uma das últimas vias abertas nesta face, obra dos criadores da famosa “Amistad” e “Capricho de Venus”. Tínhamos pela frente quatro largos que possibilitam no final sair por cima pela Via Nani ou rapelar até ao chão.

Preparados para iniciarmos a via, o Fred dá uma última vista de olhos aos antigos croquis e pronuncia uma frase que me abalaria: “O segundo largo é teu pois eu não vou escalar 30metros com um só seguro…”. Engoli em seco e decidi mostrar-lhe que não poderia ser, tinha que estar enganado, por norma analiso bem os cróquis. Segundo parece, deixei-me deslumbrar pelas belas descrições e desleixei-me na análise dos croquis: o segundo largo da via contava apenas com um ponto seguro num muro de trinta metros, numa escalada de aderência em ambiente hostil. Eu sabia que o anunciado V grau poderia ter um aspecto simpático nos croquis mas na realidade no Naranjo as coisas não são assim tão lineares. O Fred escala exemplarmente o primeiro largo que conta com 3 pontos fixos, algumas passagens periclitantes e um tecto que tinha que ser contornado onde teríamos que montar a primeira reunião. Após escalar este largo de segundo tive a certeza que não me poderia fiar nas cotações ou, pelo menos, eu ainda não tinha a destreza necessária para escalar nesta montanha. Estava na altura de eu enfrentar os meus demónios e evitar todos os vuelos possíveis.

Fred no primeiro largo da Vuelo del Dragon

 

Sérgio no melindroso 2º largo, na única protecção

 

Fred junto da fissura que não se protege

 

Felizes na reunião

 
Da reunião conseguia-se ver uma fissura generosa e eu não poderia crer que não seria possível proteger e tentei agarrar-me a esse pequeno e imaginário pormenor para me trazer algum conforto. Logo à saída da reunião encontramos uns movimentos de alguma precisão e coragem que eu decido ludibriar colocando 2 micros (no mesmo buraco), embora com a certeza que estes eram mais para o meu bem-estar psicológico do que físico. A partir daqui a escalada desenrola-se sobre uma stressante placa (à lá Peneda), sem qualquer hipótese de protecção, até alcançarmos um nicho já a meio da via onde se encontra o único ponto fixo. A partir daqui a escalada torna-se cada vez mais vertical e começam a aparecer escassamente umas pequenas regletes onde nos tentamos equilibrar. Sem perder tempo, chego à famosa fissura (francamente nítida no vídeo) que, embora generosa, era enganadora pois a sua forma em V não nos deixava proteger. Por variadas vezes tentei colocar protecção mas, por muito que eu quisesse e insistisse, ele não iria ficar. À medida que avançava a sensação de impotência ia aumentado e sufocando o pouco ar que ainda conseguia levar até aos pulmões. Por fim, já próximo das argolas mais belas que algum dia na vida vi, encontrei um pequeno e estranho buracão onde meti um pequeno amigo, mais uma vez psicológico, mas que me traria o conforto que é suposto o melhor amigo oferecer.
 
 

Sérgio a escalar o fantástico 3º largo da via

 
Depois de soltar um silencioso grito de alegria era a vez de segurar o Fred e, enquanto este escalava, eu ia tirando as medidas ao mar vertical, ou por vezes extrapumado, que se avizinhava. Depois desta escalada sentia-me repleto de boas sensações e capaz de lutar e dar novamente o meu melhor, estava determinado e nem mesmo o vento e o frio que começavam a ser cada vez mais intensos nos fariam desanimar!
 

Bem lá no fundo, o Fred inicia o 3º largo

 

Mais uma vez, o Fred neste fantástico largo

 

40 metros de rocha fantástica, movimentos atléticos e passes de desportiva, fazem deste um dos melhores largos que já escalei. Conta com apenas 7 parabolts e um pitão, mas aqui já temos possibilidade de meter um ou outro ponto. Se vamos com a ideia de escalar à vista e encadear à primeira não encontraremos grandes hipóteses de descansar. Bidedos, regletes generosas, passes aleatórios, aplats, passes de ombro e o crux, que era nada mais do que uma reglet invertida para a mão direita e uma reglete para mão esquerda, subir bem os pés em aderência, confiar e bloquear forte para alcançarmos uma presa generosa que levaria a melhor sobre mim. Ainda antes de chegarmos à reunião encontramos uma fissura que se escala em oposição, com os pés em nada, a fazer lembrar as belas escaldas da Peneda com ambiente e onde um voo nos leva a uns 10 metros mais a baixo. Aqui meto um friend já no limite e sigo para a reunião com uma fantástica sensação. Escalando já na gélida sombra, o Fred escala este longo largo e rapidamente se coloca a meu lado. O próximo largo apresenta uma escalada mais tranquila, com boa presa mas sempre vertical e atlético.

O crux do largo e o cansaço a fazer-se sentir

Em rappel, fugimos, com toda a pressa, da sombra até alcançarmos de novo o solo horizontal, que nos oferecia, num só, um belo sol de final de tarde e um belo posto para observar as andanças do Alcino e Emanuel.

A fazer amizades enquanto esperamos pelos companheiros Fauna local

 

Fauna local

Alcino na Cepeda

 
 

Emanuel na Cepeda

Alcino na Cepeda

Emanuel nos poucos momentos de sol da face Este

Típico largo da Cepeda; Alcino na chaminé

 
Era hora de regressar e de agradecer aos deuses por terem estado do nosso lado e tornado este um dia completo e repleto de boas sensações. 
 
 

O adeus à face Este

 

No Refúgio Vega de Urrielo

 
Já de noite a chuva regressaria assim como as nossas amigas ovelhas que, por variadas vezes, nos tentaram surripiar os mantimentos. Não sei se pela minha rápida investida ou estranho traje nocturno lá conseguimos afugentar estas simpáticas criaturas.
 

Simpáticas mas atrevidas

 

No dia seguinte aparecia a nossa montanha, bem molhada, por entre as baixas nuvens e, desta forma, nos retirava qualquer hipótese de tentar a nossa primeira experiência na Majestosa face Oeste.

Estava na hora de voltarmos ao carro e sucessivamente a casa, mas colocava-se a questão: “Regressaremos um dia para viver mais uma história de conto de fadas?” Só o destino o dirá, mas o que podemos afirmar é que estes 4 viveram felizes até a próxima aventura.

Uma amiga que nos acompanhou no caminho de regresso

 
Adeus e até à próxima
 
 
Fotografia da autoria de : Alcino Sousa, Emanuel Maio, Frederico Pinto e Sérgio Duarte
Edição dos vídeos por: Ana Duarte e Sérgio Duarte
Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Setembro 23, 2011

Era uma vez…

Esta é a história de 4 lenhadores pobres que decidem partir em busca de uma vida melhor, ainda que para isso tenham que enfrentar os seus maiores receios: liberar Sua Majestade que se encontra aprisionada.

Dragões, diabos, seres da noite, nevoeiros densos, tempestades, um mundo de incertezas e ilusões fazem desta uma história tão banal quanto possível.

Estes 4 humildes campónios vão viver aventuras, tentar vencer os seus terrores e acabam por descobrir que o medo não lhes assiste e que são dotados de poderes até aí desconhecidos.

Conseguirão eles concluir os seus objectos?

Brevemente

 
 
Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Setembro 14, 2011

Walter Bonatti 1930-2011

Ainda no último post falávamos de beber das bravuras dos outros sendo isso a nossa inspiração e, hoje, apercebemo-nos que uma das pessoas que mais nos inspira acabou de nos deixar.

Walter Bonatti representa a verdadeira essência do que deveria ser o espírito da montanha e sem ele esta fica certamente mais pobre.

Não vamos falar dos seus feitos que são sem dúvida únicos, mas sem dúvida que a sua ética e audácia merecem lugar de destaque pois é aqui que assenta grande parte da nossa admiração.

Se quiserem saber mais sobre esta personagem icónica da hisyória do alpinismo podem ver mais aqui  e aqui.

Eis uma personagem que vai continuar bem viva sempre que pensarmos no mais puro que a montanha nos oferece.

Pelo menos para nós ele vai continuar ai num qualquer pilar ou cume!

Descanse em paz

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Setembro 13, 2011

Partilha das Nossas Pequenas Aventuras

Decorria o ano de 2009 quando, certo dia, fui surpreendido por um estranho convite, uma actividade um pouco fora do comum, que me assustava tanto ou mais do que qualquer escalada que poderia ter feito.
 
Para mim a montanha sempre foi beber um pouco do que os outros nos oferecem. No fundo, penso que se chama Inspiração! Participar em apresentações como as do João Garcia, Daniela Teixeira, Paulo Roxo ou até mesmo ouvir as histórias de pessoas como o Vítor Teixeira, Sérgio Martins e muitos outros foram um grande incentivo para sonhar e até mesmo procurar as minhas próprias aventuras. As apresentações que presenciei sempre foram pontos altos e, nelas, ansiava sempre pelo momento das fotos e das histórias como um miúdo pela abertura das prendas no dia de Natal!!!
 
Eu e o Luís já nos conhecíamos há uns aninhos e, no final das nossas aulas de natação, penso que ele se regalava com algumas das minhas aventuras e isso levou-o a convidar-me para algo tão estranho como ir à sua escola fazer uma pequena apresentação. Não pensava aceitar, mas ele foi muito persuasivo e disse-me que seria uma inspiração para uma série de miúdos que, pertencendo a uma classe desfavorecida, nunca iriam contactar com algumas das realidades que lhe poderia apresentar. E tendo em conta o que descrevi no segundo parágrafo, era a minha vez de tentar plantar a semente e inspirar uns quantos, ainda que fosse apenas levá-los a sair para fazer umas pequenas caminhadas, já teria valido a pena.
 
Escusado será dizer que o pânico no dia D quase se apoderava de mim, quando me foi dado a conhecer que a apresentação seria na sala de audiências, na presença das turmas 11ºG/H/I da Escola Secundária da Lixa e com a presença do conselho directivo na pessoa do Dir. Armindo Coelho.

Escola Secundária da Lixa

 Bem, não era isto que eu esperava e tentei dar o meu melhor, falando-lhe das minhas experiências nos Pirenéus, Alpes e, claro, as nossas montanhas: Peneda, Gerês, Serra da Estrela, Serra do Sicó entre outras.

Aproveitei para falar do meu percurso desde o início, fazer referência ao que poderemos considerar as várias disciplinas em que se divide o montanhismo e ainda algumas dicas úteis para se iniciarem, bem como contactos importantes e interessantes.

No final, e antes da surpresa, ainda tivemos tempo para ir ao pavilhão e, desta forma, fazer as honras de experimentar uma pequena parede de escalada que, devido à falta de uso e manutenção, estava um pouco desgastada (Quem sabe depois disto ponderaram melhor a sua utilização).

No final tinham reservado para mim uma pequena caminhada pelos belos bosques que a Lixa tem para nos oferecer. Foi uma bela surpresa, o trilho estava bem marcado e notava-se o interesse e empenho de alguns alunos nesta actividade.

Felizmente ainda há escolas rodeadas por montes!

Todos a desfrutar da natureza

 

Uma pequena paragem para um Pic-Nic

Certamente uma paisagem digna de uma visita!

 

A paisagem que nos acompanhava no decorrer da bela caminhada

 

Simpática vizinhança nas proximidades da escola.

 Acabou por ser uma experiência muito enriquecedora e interessante. Só espero ter correspondido às expectativas dos presentes.

Foto de família (Obrigado pelo convite)

 

Este ano, voltou a surgir um novo convite para uma actividade semelhante, desta vez por parte da Professora Manuela Duarte que lecciona na escola Básica de Matosinhos. Aqui, o intuito era completamente diferente: tentar passar as vantagens de praticar uma vida saudável e mostrar que há sempre alternativas a comportamentos de risco e, com a vantagem, de poderem ser até mais atractivas e interessantes.
Na verdade os nossos jovens estão cada vez mais apegados ao sedentarismo, longe do que lhes pode trazer actividades e, se juntarmos a isto a má influência de zonas um pouco problemáticas, temos uma turma que é tudo menos fácil de cativar e surpreender.
Esta apresentação foi algo muito mais íntimo, apenas uma tarde e um conjunto de jovens tão curiosos quanto se pode ser com 14 anos. Foi surpreendente a quantidade de perguntas que surgia a cada imagem que eu passava! No final os comentários não deixaram de ser surpreendentes.
Inicio da sessão na Escola em Matosinhos

 

Dias depois acabei por saber que fui motivo de conversa em casa por dias a fio. É bom saber que por vezes podemos fazer alguma diferença!

No final ficam duas experiências enriquecedoras que certamente vão permanecer na minha memória, tal como outras aventuras… verticais! 

 

Pequeno documento utilizado para ajudar na palestra

 

Contexto das Palestras e Agradecimentos:

Escola Secundária de Vila Cova da Lixa
Disciplina: Educação Física
Módulo 13 “Actividades de Exploração da Natureza”
Prof. organizadores: Luís Fiunte, Daniel Barbosa, Fernando Peixoto, Ana Costa
Prof. acompanhantes: António Pimentel, Maria João Mendes, Maria José Teles, Maria Otília Pereira e Natália Coelho

Escola Básica de Matosinhos
Turma 7º H do ano lectivo 2010/2011
Prof. organizadora: Manuela Moreira
Disciplína: Formação Cívica
 

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Agosto 25, 2011

Vídeo: “Samsara de Ozturk’s e a Face Este da Meru”

Enquanto alguns post’s se encontram na forja, à espera de serem martelados e moldados com a finalidade de verem a luz do dia, deixamos neste espaço um vídeo que, não sendo recente, não deixa de ser tremendamente inspirador.

Desta vez, não há cume. Mas nem sempre uma grande aventura e um grande feito se resume ao cume. Sendo o cume um bónus, a grande vitória é voltar são e salvo e com motivação para tentar mais uma vez…

Este documentário não só está interessante na sua realização, como também na fotografia e ilustração. Vale a pena perder alguns minutos a absorver!

Divirtam-se para já com Samsara, pois em breve teremos sequela: os protagonistas ponderam voltar ao Meru!

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Julho 4, 2011

Ericeira e Fissuras em Casal Pianos

A grande maioria das pessoas quando pensa em férias e descanso pensa em praia, esticar o corpo ao sol e pura e simplesmente não ter regras nem mesmo horas para nada. Nós aqui no Chinelo não somos muito diferentes…

Como o comum dos mortais escolhemos a Ericeira pelas suas praias e, como não somos diferentes, assim o fizemos (e levamos a prancha, livros e alguns brinquedos).

Esticamos o corpo ao sol nas encostas de Casal Pianos/Magoito (e levamos os friends, entaladores, cordas e afins). Sem regras, sendo que era obrigatório chegarmos ao top, não tínhamos outra solução senão terminar todas as vias nas tão merecidas argolas. Descansar (a cabeça), podemos dizer que sim. Quanto a relaxar, existiram momentos bem tensos e repletos de adrenalina!

Graças ao feriado de Corpus Christi e a grande festa de S. João no Porto o último fim-de-semana teve cheiro a mini férias.

A necessidade de desligar e de, na verdade, conseguirmos passar momentos completamente abstraídos, faz com que nos atiremos às nossas actividades de corpo e alma e desta vez, para não variar, assim o fizemos. Além disso, era também altura de dedicarmos tempo de qualidade ao nosso pequeno Budha.

Sem dúvida que Casal Pianos é um local sem igual em Portugal, quer pela paisagem, quer pela rocha não muito comum (Basalto) e quer pelo estilo de escalada. Para começar é simplesmente maravilhoso imaginar fissuras perfeitas, uma forma tão perfeita criada pela natureza e que nem sempre temos a possibilidade de encontrar, pelo menos em tão grande número. A rocha e o tipo de escalada são tão surpreendentemente diferentes que o nosso ego é esmagado sempre que nos metemos numa via nova, (e eu que o diga quando me decidi seguir o conselho de um Espanhol que me recomendou a “Torre de Tranga”).

Embora tivéssemos escalado quase todas as vias à vista no primeiro dia (não podemos deixar de referir a fantástica “Tridente” uma via de veras única), a lição de humildade estaria reservada para o segundo dia.

Não saímos de Casal Pianos sem antes termos sacado uma presa de 5kg quase no top da via mas que carinhosamente carregamos pelo longo caminho até ao carro e depois até casa e que vai passar a fazer parte dos nossos troféus lá no jardim!

Muito haveria para escrever mas como já não estamos de férias vamos deixar-vos com as fotografias, certamente valem bem mais do que as nossas 1000 palavras.

Desta vez e mais do que nunca o Chinelo de Meter o Dedo fez parte da indumentária!

Técnicas de desmultiplicação para tomar um duche!

Preparativos: quem vai de primeiro tu ou eu?

Ambientar em Casal Pianos, bem é preciso!

Fissuras de Casal Pianos

Em boa companhia...

Alcino aplicar-se nas fissuras.

Panorama da nossa costa

O S. João em Casal Pianos

Uma via muito engraçada, para já ainda se escala...

Fissura perfeita

Emanuel a iniciar a bela Tridente

Vistas de Casal Pianos, Magoito

Alcino entala-se e bem na Tridente

Basalto e as suas formações características

Fissuras e mais fissuras

Reunião e as merecidas argolas!

A carregar o troféu!!!!

Alcino nas Fissuras Paralelas

Há que desfrutar das vistas!

A fugir ao tecto...

Alguém nos pode dizer que via é esta?

Pata Agonia

Esfoliação gratuita, os efeitos das fissuras.

Diedro perfeito este

Sérgio a começar a torre da tranga

A vontade de regressar.

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Junho 15, 2011

Uma Escapadela Clássica a Faro de Budiño

Semanas incríveis de stress trabalho e mais trabalho, sem tempo para respirar fazem-nos desejar mais do que nunca o fim-de-semana, embora nem sempre o fim-de-semana seja sinónimo de relaxar e abstrair.
Planeara ir fazer clássica à Serra da Estrela mas algumas surpresas desviaram os meus planos e este sábado teria mesmo que aproveitar e não deixar escapar a folga, ainda que não desse para ser na Serra uma rápida escapadela a Budiño seria mais realista.

Ui! Só o prazer de reunir o material de escalada clássica já me fazia sorrir, friends, entaladores, mosquetões, cintas, estribos, desentalador, expresses, cordas duplas, arnês, pés-de-gato, magésio, etc., etc…
Tudo isto reunido na mochila e já nós nos encontramos na paisagem de Faro de Budiño a escolher por onde começar.

As vistas de Faro Budiño

Desde o encontro de escaladores que a imagem de uma fissura não me saia da cabeça e nada melhor que abrir a época balnear numa via que aparentemente não traria grandes surpresas. Calavera, uma via completa com chaminés, fissura, bavaresa e um primeiro largo de 17m sem protecção, em placa tombada, não era a melhor forma de começar, mas teve que ser.

Primeiro largo, um III grau sem protecção

 

Dentro da chaminé da Calavera em Faro Budiño

Terminada a via tivemos que fugir ao sol abrasador e, enquanto reconfortávamos o corpo, éramos regalados com a imagem de uma fissura mítica, uma fissura que em tempos seria o expoente máximo de auto protecção desta escola. Um largo 7b, de fissura por vezes cega, com 22 metros de sofrimento que podem ser escalados inteiramente com os nossos “amiguinhos” ou então resignarmo-nos e utilizarmos os expansivos. Um sonho de fissura!

Fissura de 7b de auto protecção Oeste

De volta à realidade, optamos por dar a hipótese ao Vítor de se iniciar nas lides do entalanço, que acabou por abrir exemplarmente a sua primeira via de clássica “Miss Ripley 6a”, com direito a surpresa no final.

Vítor a desfrutar uma escalada de puro prazer!

 

 Alfange era a via que nos iria tirar dali, depois de progredirmos pelos cristais e regletes ínfimas do primeiro largo e, quando avistávamos a bela fissura de 25 metros do segundo largo, eis que que o céu se fecha e as gotas começam a cair…

Últimos passos do dia e primeiros da via Alfange

Estava na hora de fugir e voltar à realidade. Pena não termos escapado pelo topo da parede mas, ainda assim, saímos reconfortados com a tranquilidade que só a montanha nos consegue trazer.

Estávamos então prontos para mais uma dura semana, que passou rapidamente desta vez a sonhar coma Meadinha!

Publicado por: Chinelo de Meter o Dedo | Maio 3, 2011

Redescobrir a Escalada

A vida passa realmente a correr e, quando achamos que algo vai demorar uma eternidade, zás já passou!

Dois Invernos, uma Primavera, um Verão, um Outono, 12 meses passados, 14kg depois, vários suplementos alimentares, alguns (poucos) desejos estranhos, vários kms a pé, umas quantas fraldas mudadas e aqui estou eu pendurada de novo, agarrada a uma presa escorregadia e a não querer subir o pé com medo de arriscar. Será que algo mudou?

Serra dos Passos (Mirandela)

Um ano depois venho eu redescobrir a escalada na minha mais que familiar Serra do Sicó, uma paisagem que eu tão bem conheço e que tantas recordações me traz.

E pelo meio de tudo isto o que temos? A maternidade, uma aventura que a mãe natureza nos proporcionou e que chega a ser digna de um post neste Blogue de viagens, aventuras e devaneios.

Neste interregno, a cabeça enchia-se de dúvidas. Para além das mais que óbvias dúvidas da maternidade existiam as dúvidas da escalada, qual o meu estado de forma (certamente mau…), não vou ter força nos bracinhos (comecei por treinar com um bebé de 3.600kg, mas rapidamente avancei para os 8kg), vou ter um medo de morte de uma queda (sempre tive), será que vou ter na mesma aquela paixão pelo ar livre e pela montanha ou será que um ano afastada tudo mudou?

No Tarn (França), grávida de 5 meses

Sem dormir uma noite completa nos últimos 5 meses a ideia de me levantar a um fim-de-semana às 7.30h para ir escalar, ainda para mais com uns pingos a salpicar a janela, era certamente um pesadelo… Não, vou mas é virar-me para o outro lado e acreditar que este sonho mau vai passar!

Foi dureza mas com muito esforço lá me arrastaram para fora da cama e preparado o Matias, assim como toda a logística de escalada (sopa, papa de fruta, manta, carrinho, fraldas, etc.), lá nos pusemos ao caminho.

Primeira incursão do Matias a um spot de escalada (Sto. Tirso), com 15 dias.

A velha escola da Redinha era o spot perfeito e se aqui não resultar, voltamos passados 3 anos! Mas não podíamos estar mais surpreendidos: o tempo estava fenomenal, a temperatura muito amena e um sol que aquecia corpo e alma e não fosse uma cagada até às costas e o Pipo tinha feito um pleno!

O coração a bater rápido, nó no estômago… E o nó de oito?! Será que ainda o sei fazer?! Pelos vistos é como andar de bicicleta: sai sem se pensar muito. Inato, encordo-me, calço os pés de gato (disto não tinha saudades), magnésio nas mãos e olho para aquela via que tanto trabalho e dores de cabeça me deu para encadear. Respiro fundo. Era a hora do recomeço e a hora de voltar a sentir aquele nervoso miudinho que nos percorre e nos move de presa em presa ou nos bloqueia e congela de medo até o pé ou a mão saltarem sem aviso prévio.

Serra dos Passos (Mirandela)

Depois dos primeiros passos tive uma epifania e descobri que todos os meus receios afinal não tinham razão de ser. Que bom que era estar ali e que bem que eu me sentia naquele ambiente. Claro que não parecia que tinha feito aquilo no fim-de-semana anterior, pois a força nos bracinhos já não era a mesma coisa. Mas senti-me plenamente bem a escalar, e escalar aquela via era tudo o que eu queria no momento. Passado tanto tempo ainda me lembrava dos passos, percebi que ainda me sabia mexer na rocha, afinal estava em mim, entranhou-se e pelos vistos entranhou-se para ficar. Descobri que tinha mais saudades do que imaginava e estar naquele ambiente, andar descalça na base das vias e principalmente sentir que o pequeno também estava em pleno tornou aquele dia mais que especial!

A escalar o Naranjo (Picos da Europa)

Não me podia ter sabido melhor, não podia ter corrido melhor e o inicio do Matias nesta vida ao ar livre tão saudável e tão boa foi o realizar de um sonho.

De referir que os amigos passam a ter um papel importantíssimo nesta nova etapa da vida e já não só dão dicas para superar o crux como também dão a sopa e a fruta e até mudam fraldas!

Mais dias se repetiram entretanto, em outras escolas e em outros ambientes e tem sido tão bom voltar a escalar com voltar a rever velhos amigos. Falta ainda dominar o medo, mas isso já faltava há um ano atrás. Mas isso… Isso é um projecto de uma vida. Para já vamos a projectos de uma via!

Até breve.

Mer de Glace (Alpes)

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